sábado, 14 de agosto de 2021

Eu sou toda mar

 

Desenho de autoria própria.

Eu sou toda mar. Quisera ser (a)mar. Quisera eu pensar menos em ti e amar-te somente. Mas eu penso tanto, tanto. Eu penso excessivamente. Lanço mil e uma conjecturas sobre o passado e o futuro. Teço e desteço anseios e memórias, diante deste mar azul turquesa.

Está um sábado lindo e, às seis da manhã, já estou na praia. O cheiro da maresia me invade enquanto o sol beija todos os meus poros. Que delícia! Aproveito a praia quase deserta e tiro a parte de cima do biquíni. Oh, que alívio! Como eu queria que tu me dissesses o que sentes por mim sem que eu precisasse perguntar. Queria ter o dom de entrar em teu coração à noite e descobrir o que sentes por mim. Se eu percebesse o terreno livre e fértil, eu me declararia para ti no dia seguinte. Porém, tudo que tenho são sonhos e suspiros. AH, que dia lindo!

A areia ainda não está muito quente e me deito diretamente sobre ela. O céu não tem uma nuvem sequer, mas o sol me ofusca e fecho os olhos. Oh, eu quero amar-te; quero me diluir em ti. Oh, por que não me procuras tu? Eu tenho medo, muito medo de pôr o pé dentro d’água. Tenho muito medo de me afogar. Oh, Janaína, me ajuda! Me ajuda a confiar no que estou sentindo. Me ajuda a ser água.

Eu quero ser água. Eu quero fluir para ti. Eu não quero chegar derrubando tudo. Eu quero chegar de mansinho, beijando teus pés e ir subindo devagarzinho, até transbordar em ti. Mas como é difícil ser água. Na verdade, como é difícil ser um rio manso. Eu sou, sempre fui, um mar revolto. Um mar em dia de ressaca.

Sinto meus mamilos intumescidos com o vento frio. Que vontade de revelar esta pérola de amor que guardo em meu peito. Oh, Janaína, liberta-me do medo de submergir nas águas profundas do meu coração! Liberta-me deste medo de amar! Amar-te sem medos ou reservas. Amar-te integralmente. Ser o próprio Amor, para que não seja possível outra coisa além de amar-te.

O sol esquenta e eu começo a suar. Abro os olhos lentamente e me sento. Observo o mar azul turquesa e corro para os seus braços. O mar cheio, intenso, como as minhas emoções. Mesmo assim, mergulho. A princesa de Aiocá me conduza. Tenho medo de te amar e deixar de ser eu. Mas quem sou eu? Quem sou eu de verdade? Quem sou eu quando não preciso agradar nem impressionar ninguém? Quem sou eu, quando apenas sou?

Entre o Paraíso e a Barreira do Inferno, eu me entrego a ti, Janaína. Eu entrego minhas preocupações ao mar. Entrego os meus medos e angústias a este firmamento azul. Eu me entrego a ti, meu amor. Eu entrego todas as minhas resistências. Eu entrego a ti, minha mãe, o meu medo de amar e me entregar. Eu me rendo ao mar. Eu sou água e entrego minhas questões insolúveis ao sol. Eu me entrego ao vento e, juntos, dançamos no amor, entre o Paraíso e a Barreira do Inferno.


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

A ferida sagrada que nos dá força

 

Desenho de autoria própria


Há uma ferida em meu peito e eu não sei o que fazer com ela. Sou uma espécie de Prometeu acorrentado ao Cáucaso de minhas memórias, onde os abutres vêm me visitar sempre que me penso curada desta chaga. Eu queria que algum Hércules me salvasse e a ferida sarasse por completo. Porém, eu mesma terei de fazer o trabalho hercúleo de curar-me.

A ferida em meu peito não sangra mais, mas lateja de quando em quando. E, naquele inexorcizável três de agosto, calhou de doer novamente. Depois de tanto tempo, esta data ainda é o maior abutre de todos. O dia em que nós terminamos, ou melhor, que eu terminei com aquele ser que não quero dizer o nome (e nem xingá-lo). Fato é que o fogo de minha paixão juvenil converteu-se nesta chaga que hoje ostento.


Tenho trinta e poucos anos, mas, de tão amarga, aparento o dobro. Até quando, meu Deus? Até quando vou me culpar por essa escolha infeliz? Já são nove anos. Eu já deveria ter superado isso. Eu já deveria ter virado essa página e amado outro alguém. Não sei mais o que fazer. Pai, cura essa chaga de amor em meu peito. Cura essa ferida que me impede de amar novamente.


Eu queria curar essa ferida de uma vez por todas e me livrar dela. Na verdade, queria que ela nunca tivesse existido. Assim, eu não precisaria me preocupar com ela ― e, muito menos, senti-la latejar de quando em quando. Todavia, uma chaga de amor não é uma perna quebrada, que você toma anti-inflamatórios, passa um tempo com a perna engessada e, semanas depois, está novinho em folha, saltitando por aí. Uma chaga de amor é para sempre. Sempre vamos levar essa cicatriz no peito, mesmo depois da ferida desinflamar. E, por mais trágico que isso possa soar, não há nenhum deus, semideus ou herói que possa nos libertar e fazer a ferida magicamente desaparecer.


Há, no entanto, uma boa notícia: “depois de um tempo, ela vira uma ferida sagrada, que nos dá força”, como disse um amigo meu, certa feita. E, mesmo que essa ferida nunca se feche por completo e que continue latejando esporadicamente para o resto de nossas vidas, é possível amar infinitas vezes. Sim, é possível. Eu só preciso aprender a amar apesar dela, ao invés de me esconder nesta torre, como se fora um monstro disforme e purulento. Ademais, eu não sou a única a ostentar uma chaga de amor em meu peito, nesta terra de corações esburacados.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Anima


Eu oscilo entre a terra e o fogo; entre a carne e o espírito. Eu sou o suculento e o numinoso. Eu sou o dito e o não dito. Eu sou o visível e o invisível nas entrelinhas.

Eu oscilo entre enraizar e eclodir. Eu quero descer às entranhas do vulcão e chegar o mais próximo possível do céu. Mas eu tenho medo de ser imprudente como Ícaro. Eu tenho medo de me aproximar demais do fogo e perder as minhas asas.

Eu oscilo entre o cultivo e a emanação. Eu teço e desteço sonhos e necessidades, sem coragem de entrar no labirinto. Um labirinto sem portas ou paredes, que pode ser um jardim ou um charco; um sonho ou um pesadelo. Posso arriscar? A natureza do onírico é essencialmente labiríntica.

Eu oscilo entre a prudência e a euforia. Eu quero guardar energia para quando o inverno da alma chegar, mas me sinto profundamente tentada a gastar todo o meu suprimento nestes dias de alegria veranil.

Eu oscilo entre o resguardo do que penso e sinto e a autopermissão para que o fogo se alastre. Eu sou uma borboleta prestes a alçar voo. Meus pés, porém, hesitam em deixar o chão.

Eu oscilo entre ser e parecer; entre suar e ressoar. Eu visto a mesma música há tantos anos, que já esqueci a minha melodia original. Há mais de vinte anos longe de casa, eu lembro com nostalgia o perfume anímico que soterrei.

Eu oscilo entre a terra e o fogo. Eu ainda não aprendi a ser água. Eu ainda não aprendi a fluir e, neste fluir, contornar todos os obstáculos até o meu transbordo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

A arte como tortura

Desenho by: M. C. Escher
Quando Viktor Chklovski pensou a arte como procedimento, ele não presumiu que o obscurecimento da forma pudesse ser usado como tortura. Primeiramente, como autotortura, ou seja, o próprio artista torturando a si para encontrar a imagem poética perfeita e não familiar. E, em segundo lugar, uma tortura chinesa disfarçada de amor. Acredito, sinceramente, que Chklovski não imaginou que o seu conceito de obscurecimento da forma seria usado de maneira tão torpe pelos casais, nos quais um dos parceiros sente-se no direito de determinar a poética do outro. Sim, eu conheci o obscurecimento da forma como tortura, antes de conhecer o conceito cklovskiano.

Meu ex-namorado é poeta. Um poeta que, à época, criava imagens poéticas muito bonitas, mas muito herméticas. Eu me embevecia com seu hermetismo, mas a minha escrita ainda era uma prostituta inexperiente, que se dá para qualquer um, sem se importar com a procedência do sujeito. E eu gostava da minha escrita assim. Eu me regozijava sobremaneira com a sua entrega. Eu só não me conformo de ter entregue a minha arte para aquele Hermes traidor.

Certa vez, inventei de converter minhas descobertas sexuais com ele em literatura. Mesmo ainda muito tímida, consegui transbordar no papel todo o meu encantamento e gozo. Que júbilo! Senti uma felicidade tão bonita, que quis dividi-la com ele. Eu era deveras ingênua. Eu não imaginava que ele fosse um Hermes traidor. Pois bem. Ele ouviu a primeira cena do romance e iniciou sua tortura: "Você precisa escrever de um jeito que ninguém desconfie que está falando de nós dois". Parece óbvio, e é, que havia uma segunda história cifrada aí. Essa narrativa subterrânea dizia que a minha escrita precisava ser tão hermética quanto a dele não por uma questão estética ou estilística, mas por uma razão (anti)ética: ele queria permanecer livre para outras aventuras amorosas, concomitantes a mim. Por isso, eu fui terminantemente proibida de enredá-lo em minha poesia.

Eu poderia, se quisesse, falar dos bambus performáticos e de todo o nosso arsenal de carícias. Sim, eu poderia me expor o quanto quisesse. Eu poderia, inclusive, se esta fosse a minha vontade, colocar minha alma inteiramente nua sobre a gramática. Mas ninguém jamais poderia sequer desconfiar de que era com ele que eu gozava em meus textos. Logo, eu não poderia revelar nada que fizesse o leitor chegar até ele. E eu, apaixonada e imatura, cedi aos seus temores. Então, cifrei minha escrita o quanto pude, pois esta era a única forma de eu poder me derramar na literatura e, além disso, manter o nosso pseudo-relacionamento.

Desta forma, com uma linguagem cada vez mais fabulosa e truncada, eu me afastei da Fonte e me perdi de mim. Eu não sabia mais que poética era a minha e que poética era uma imposição dele sobre a minha escrita. Tanto que, quando terminamos, eu não conseguia escrever uma vírgula tamanho o bloqueio criativo que experimentei. Eu de fato havia desaprendido o caminho para a Fonte e sequei.

Apenas em 2012, quando conheci o Chklovski, foi que eu descobri que não precisava sofrer tanto assim para obscurecer a forma e criar imagens poéticas interessantes e provocativas. Ainda com o formalista russo, aprendi que posso recorrer a diferentes níveis de obscurecimento da forma, dependendo do tipo de texto que eu esteja trabalhando ou do efeito que eu pretenda alcançar.

Já com o Hermes traidor, aprendi a respeitar a minha escrita. Aprendi que a minha poética é minha e só eu posso alterá-la, se esta for a minha vontade. Aprendi ainda que não posso dar a ninguém o poder de me afastar da Fonte novamente.

sábado, 22 de junho de 2019

Um prazer deveras bacante


Eu amo escrever à mão. Amo! Nestes vinte anos de ofício, eu sempre escrevi à mão. Sempre. E continuei escrevendo à mão, mesmo depois da popularização dos computadores e, consequentemente, dos editores de texto.

Eu amo escrever à mão. Amo! Amo desenhar as letras no papel, uma a uma. Ao me permitir amar as palavras através dele, aquele papel, antes totalmente branco e incólume, faz reverberar em mim um prazer orgiástico. Que prazer inenarrável deitar o lápis sobre a folha e fazer eclodir nela lágrimas, sangue e suor!

Eu amo escrever à mão. Amo! Apenas no início dos anos 2000, quando tive acesso a um computador, foi que comecei a digitar as minhas histórias e a salvá-las em disquetes. No entanto, eu nunca abandonei o hábito de escrever à mão. Tanto é assim, que adotei o seguinte método: eu escrevo a primeira versão do texto à mão; em seguida, eu edito esse primeiro rascunho; e só digito quando sinto que finalizei o texto e que alcancei o resultado que eu queria. É verdade que tal procedimento dobrou ou mesmo triplicou o meu trabalho como escrevinhadora. Entretanto, raríssimas vezes consigo escrever diretamente no computador. O computador, com todas as suas janelas para o mundo, me dispersa sobremaneira. Enquanto isso, o lápis e o papel me convidam para um mergulho em águas profundas.

Eu amo escrever à mão. Amo! Para mim, trata-se de uma verdadeira alquimia que, de uma mente turbulenta como a minha, eu consiga extrair ideias tão resplandecentes. É, de fato, a transformação do chumbo em ouro, isto é, do caos em luz. Porém, isso só é possível se eu mergulhar fundo no texto que estou escrevendo. Por isso, mesmo tendo um trabalho duplo ou triplo, eu não me abstenho de escrever à mão.

Eu amo escrever à mão. Amo! E não digo isso com o intuito de parecer cult ou underground. Muito menos por ser resistente à tecnologia ou mesmo por um capricho quixotesco em prol do retorno da escrita manual. Não. Eu não posso exigir que ninguém ame escrever à mão, como eu amo.

Eu amo escrever à mão. Amo! Quando escrevo à mão, eu me sinto úmida. Eu sinto que a minha alma volta a vicejar depois de um longo e hostil inverno. Para mim, escrever à mão é um prazer deveras bacante. Prazer este que, no que depender de mim, as tecnologias nunca conseguirão me roubar.


sexta-feira, 24 de maio de 2019

A Inspiração



Silencia e escuta. Respira. Escuta. Abre todos os ouvidos da tua pele. Abre todos os canais sensitivos da tua alma. A Inspiração já está aí. Silencia. Ela quer falar-te. Aquieta. A Musa só é audível no silêncio. 

Ouve o inaudível. Regressa à Fonte. É de lá que a Musa emerge para embriagar-te. Silencia e escuta. Esquece, por alguns minutos, que o aluguel vence amanhã. Esquece o mundo. Na Fonte, tudo cresce e prospera. Ouve. Entrega-te à Harmonia. 

Entorpece-te de ti mesmo. Ouve o silêncio que habita em ti. Até Deus descansou ao sétimo dia. Descansa tua alma na Fonte e ouve a Musa. Ouve a lira de Orfeu, que encanta até o Hades. Aquieta-te, criança. Serena a tua mente para ouvir. 

Cessa o pensamento um instante. É o sentir que te conecta à Musa. Esquece a linguagem acadêmica, por ora. Esquece todas as teorias e sê apenas uma alma humana. Não há o que explicar. Acalma-te. A Musa anseia tão somente a tua entrega. 

Respira. Cerra teus olhos e submerge na Fonte. Desce ao cerne de tua consciência e regressa ao silêncio. Em tua infinitude particular, transborda e esvazia simultaneamente. 

Ouve. A Inspiração é isto: o inexplicável, o numinoso. Ouve. É acessando o intangível, que podes transformar o sensível em palavras. 

Desarma-te. Baco te chama. Baco te inflama. Aceita esse bacanal em ti. Aceita a tua condição bacante. Permite que as ideias dancem o quanto queiram. Depois editas. Embriaga-te primeiro. Entrega-te ao êxtase e deixa a Musa falar através de ti. Depois editas. 

Aquieta. Silencia e ouve. Esquece a técnica. Esquece as fórmulas. Há um só caminho: render-te à Musa. Não precisas ser um expert em nada. Não precisas dominar qualquer técnica. Apenas sentir. E sentir com tal intensidade, que consigas revelar o sensível a quem ainda não o conhece. 

Silencia mais um pouco e ouve-me. Tu és a Fonte. Tu, criança, és a única responsável por alimentar a Musa. Silencia e a alimenta. Nutre a Fonte que és. Aquieta teus temores. A Fonte não secará tão cedo. Aquieta. Aquieta e ouve o que não digo.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Linha cruzada

(Foto: Thinkstock)

       Em um de seus livros, Evanildo Bechara afirma que precisamos ser poliglotas de nossa própria língua, ou seja, que conheçamos tão bem a língua portuguesa, que sejamos capazes de moldá-la a qualquer situação de uso. Entretanto, quando estamos aprendendo uma segunda língua, às vezes, acontece de dar linha cruzada no cérebro.
       Os mais novos talvez desconheçam a expressão “linha cruzada”, mas vou explicar o fenômeno. Ocorre a linha cruzada quando duas chamadas telefônicas se misturam. Hoje, com aparelhos celulares mais aperfeiçoados e tecnologias mais precisas, a linha cruzada tornou-se rarefeita. Já a linha cruzada cerebral, sináptica, parece-me cada vez mais amiudada. Começando por mim.
       Este ano, 2019, eu estou completando vinte anos de escrita literária e sete, de escrita acadêmica. Ainda hoje, dá linha cruzada entre as duas. Quantas vezes não me flagrei escrevendo como escritora os meus trabalhos acadêmicos? Quantas vezes meu orientador não me disse, desde o primeiro período do curso, que eu preciso separar a escritora da acadêmica? Mesmo assim, ainda dá linha cruzada entre as duas.
       Eu escrevo como se o leitor já soubesse o que vou dizer e eu não precisasse dizer tudo. Às vezes, porém, escrevo omitindo informações, para poder redirecionar a história depois. Também acontece, aqui e ali, de eu cruzar campos semânticos, tempos, lugares e eventos, para, deliberadamente, criar ambiguidades e confundir o leitor. Todos esses procedimentos enriquecem a literatura e a escritora pode se valer de todos eles em sua poética. Não obstante, de quando em quando, me pego fazendo isso nos trabalhos acadêmicos: escrevendo como se o leitor conhecesse a fundo a minha pesquisa; saltando da teoria para o corpus ou de uma teoria para outra, como se o leitor conseguisse visualizar todo o meu mapa sináptico etc. Creio que ou eu superestimo o meu leitor ou eu superestimo a minha capacidade de sintetizar informações.
       Gostaria, sinceramente, que essas linhas cruzadas parassem de dar. Gostaria que o meu cérebro parasse de ver a escrita acadêmica como arte e passasse a vê-la como técnica. Gostaria, enfim, de aprender a difícil arte de conciliar a escritora e a acadêmica.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Um quase não tempo



A harmonia que impregna o mundo ao amanhecer é translúcida e palpável. Essa harmonia é tão sublime que é quase um não tempo. Este não tempo pinga como “Für Elise” ao piano. Contudo, pela janela do ônibus, ressoa das árvores sua pulsação. Seu contentamento é uma espécie de Allegro silencioso. Ao menos começa silencioso enquanto estamos no não tempo. A melodia, aguda e urgente, ainda dorme. Por isso a harmonia é tão tangível. Tanto, que parece que este mundo ainda não foi criado. Ou, talvez, mais provável é que os homens ainda dormem. Dormem e perdem este paraíso.
Este amanhecer tão harmonicamente sutil é um Noturno, de Chopin. Mas o mundo já foi criado e os homens precisam reviver seus automatismos miseráveis. É uma pena que a harmonia seja inaudível para alguns. Se ao menos as turbas tivessem a surdez sensível de Beethoven. Em vez disso, as criaturas, ao acordarem, esfacelarão a harmonia com suas dissonâncias e estridências.
Fecho os olhos. A harmonia ainda está aqui. É cedo e está chovendo. O não tempo pode se estender mais um pouco, antes que recomece a 5ª Sinfonia de Beethoven que é este mundo, especialmente esta ilustre província da qual sou filha.
Não obstante, eu própria reconheço que estou mais para Beethoven do que para Bach. Esta harmonia que meus ouvidos moucos tiveram a outorga divina de sorver não me pertence. É do Todo. É o Todo. Eu ainda sou muito geniosa para impregnar-me desta harmonia translúcida e palpável, como a manhã fez.
Desço do ônibus e logo me aborreço. Pronto. Se fui harmonia por brevíssimos minutos, já voltei a ser disritmia. A harmonia, porém, sobrevive em mim como lembrança. Lembrança de que, enquanto o caos dorme, é possível ouvir a harmonia de Deus. 

sábado, 8 de dezembro de 2018

Prosadora a prosear




João Pessoa, 05 de dezembro de 2018

Quando eu digo que sou escritora, sou eu que estou dizendo. Eu me reconheço escritora. Eu me sinto escritora. Eu não sou poeta. De vez em nunca, atrevo-me a versificar, mas não me sinto poeta; não me reconheço entre os poetas. Até busco, extática e incansavelmente, uma prosa poética entre os meus dedos. Todavia, é só isso que sou: uma prosadora. Porém, eu dizer que sou é uma coisa. Eu posso, inclusive, nem ter esse virtuosismo todo em meu ofício de escrevinhadora. Contudo, posso, narcisisticamente, sentir-me boa no que faço. É a minha visão; o meu sentir. Agora, quando um outro diz, dependendo de quem seja esse outro, pode elevar-nos à quinta potência ou nos fazer sentir um escritor de quinta.

Ontem, uma pessoa que admiro muito e que é um leitor qualificadíssimo chamou-me de prosadora durante a aula. Por um segundo, abismei-me: “Ele lê o que eu escrevo?”. Mesmo incrédula, senti-me honrada: “Ele lê o que escrevo!”. Como quem se reencontra no caminho certo depois de inúmeras bifurcações da alma, eu fiquei extasiada na hora e me emociono ao recordar tal fato, pois, para mim, o bem mais precioso que temos é o tempo. E saber que alguém, quem quer que seja ele, dedica seu tempo e seus neurônios à leitura de minhas confusões e confissões deleita profundamente meu coraçãozinho; ainda mais quando se trata de um grande mestre e um grande leitor dos clássicos e de outros tantos cânones.

O que esse mestre talvez não saiba, mas aproveito a oportunidade para dizer-lhe, é que ele muito contribuiu para a construção desta prosadora aqui. Um dia, você disse em sala que “a poesia é para ser ouvida” e súbito reparei que eu não ouvia o que eu mesma escrevia. Eu escrevia e ponto. Mesmo na revisão, lia apenas com os olhos. Contudo, depois daquela aula, passei a ouvir o que escrevo e, ouvindo-me, pude perceber minha disritmia e até atenuá-la em alguns casos; pude identificar as ranhuras e ranços do texto e dissolvê-los ou intensificá-los, a depender do efeito pretendido. Então, depois desta autopoiesis[1] toda, ouvi-lo me chamar de prosadora foi, indubitavelmente, um dos melhores deleites.

Com admiração e estima,
Sara Carvalho






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[1] Os biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela trazem o termo “autopoiesis” como a capacidade que o nosso organismo tem de recriar-se constantemente, visando sobretudo a manutenção da vida. Contudo, aproveitando-me do meu conhecimento sobre Aristóteles, estendo o significado de “autopoiesis” para “capacidade de recriar minha própria poética”.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Abraçando o Minotauro



Cansada de esperar, Ariadne adentrou o Labirinto. Seus olhos tremiam de medo e euforia. Queria submergir no mais profundo dos olhos do Minotauro e ver tudo o que tivesse para ser visto a respeito de si mesma. Porém, titubeou um instante: “Mas… e se o Labirinto me engolir?”. Ele a engolirá, não duvide. Todavia, use o fio para regurgitar-se em segurança. Mais que depressa, ela amarrou uma de suas pontas à entrada e começou a tecer-se.

Confiando no fio, Ariadne caminhou serena e convicta. Seus olhos, contudo, não chamavam a morte. Não. Seus olhos ansiavam pelo poder e força do Minotauro. E, a cada passo que dava, mais do fio ficava para trás. Quanto mais avançava, menos se lembrava de Teseu; menos queria sua presença ali. Para quê? Para matar seu segredo? Não! Ariadne precisava descobri-lo ontem!

Numa esquina desatenta, Ariadne esbarrou na criatura; fitou-a e gaguejou o próprio nome: A-ri-ad-ne. O Minotauro ensurdeceu. A voz de Ariadne bruxuleava. O que fazer? A jovem, então, gritou. E gritou seu nome cada vez mais alto até o Minotauro se convencer da força que Ariadne tinha.

- O que você quer? Quer me aniquilar, como os outros? - antecipou-se o Minotauro.

Ariadne estacou. Sabia que o “não” ressoava dentro de si, mas não conseguia, não conseguia. Mal conseguira dizer o seu nome sem gaguejar!

- E então? O que quer de mim? - impacientou-se o Minotauro.

Ariadne, então, fincou os olhos na criatura e, por um longuíssimo segundo, temeu titubear. Pior: sentiu que diria “não” sorrindo, como sempre fizera. No entanto, contrariando suas próprias expectativas e receios, Ariadne proferiu com toda firmeza e determinação de que dispunha:

- Eu não vim matar você! Eu não quero matar você! Eu não vou matar você! Eu quero que você seja parte de mim! - O Minotauro olhou-a de volta, ainda não totalmente convencido de sua assertiva.

- Caminhe - ordenou-lhe. - Convença-me de que pode expressar a mim.

Ariadne dividiu-se. Como poderia, em seu passo miúdo, expressar uma criatura que tinha o dobro do seu tamanho e o triplo da sua força? A jovem, então, recolheu-se em si; respirou. Reunindo toda a sua força e coragem, Ariadne cerrou os punhos e se pôs a caminhar no centro do Labirinto. O Minotauro, cético, fixava as passadas cada vez mais largas e convincentes de Ariadne. Era tanta energia, tanta energia, que a jovem ameaçou chorar, mas foi apenas uma ameaça. Quando suspendeu o passo, o Minotauro a provocou:

- E se Teseu chegasse e me matasse?

A jovem começou a inflar e ruborizar, até que gritou:

- NÃO! NÃO ADMITO! Não permito que ele mate o que eu tenho de mais precioso! NÃO, NÃO e NÃO!

- E se eu me autoaniquilar? - desafiou-a mais uma vez.

- Eu não permito - asseverou Ariadne, com fogo nos olhos.

- Você crê me impedir? - Ariadne assentiu sem esmorecer. - Então me mostre o quanto você está disposta a defender minha existência.

O fogo nos olhos da jovem ascendeu cada vez mais e tomou-lhe todo o corpo. Seu olhar era incisivo o suficiente para matar um. Suas mãos transfiguraram-se em garras afiadas e ágeis. Seu rugido trovejava de tal forma, que todo o seu corpo vibrava, ressoando-o.

- Muito bem. Estou convencido de que você me defenderá - revelou o Minotauro. - Agora fique aqui e só saia quando eu disser que pode. - Ariadne, belicosa, fulminou-o com o olhar.

- Não fico. Não preciso ficar, se eu não quiser - enfrentou-o.

- Não vai ficar? Tem certeza? Veja como essa quina é agradável! - insistiu o Minotauro.

- Eu não quero - persistiu a jovem.

- Pois bem. Eu vou com você - assegurou ele. - Vou, porque agora sei que, além de não vai me matar, você irá me nutrir.

Ariadne assentiu com um discreto gesto de cabeça. Em seguida, a vimos sair do Labirinto, una com o Minotauro.

Eu sou Ariadne e essa é a história de como eu abracei o meu Minotauro.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Marte em Áries

Marte em Áries by: Sara Carvalho


       “Eu estou com muita raiva de você” - penso, quando uma lembrança sua me furta. “Sim, eu estou com muita raiva de você” - repenso, trincando os dentes. Meu olhar, frio e cortante, não mente: estou realmente com raiva. Contudo, furta-me novamente a lembrança do teu sexo. Nisso, o desejo de vingança e o tesão se fundem dentro de mim. Confundem-me momentaneamente. “Não! Não quero recordar seu beijo! Estou com raiva!” - exaspero-me. Suas mãos… Ah! Suas mãos em mim… “Eu estou com raiva de você” - recordo-me, minha sinistra em sua carne e, a destra, na peixeira. Estou deveras irritada.
       “Por que fez o que fez? - questiono-me. - Onde está o amor que me alardeia?” Sua incoerência me preocupa. Você esqueceu que meu Marte é em Áries? Antes disso, você esqueceu que eu tenho um coração?
       Sua carne fina, gelada, escorre pela bancada. O cheiro doce de suas carnes reverbera em mim. Poderia cozinhá-la só com o fogo dos meus olhos. Estou com muita raiva de você. Gostaria, sinceramente, de não mais vê-lo. Neste momento, gostaria sequer de tê-lo conhecido. Estou tão irritada com você! Tão irritada por você não ter respeitado o meu processo. Irritada por você ter se confiado no meu coração sempre aberto e gentil. Não me desfaço da minha ternura, mas meu Marte continua sendo em Áries. Quando eu me irrito, me irrito profundamente.
       Não sei se isso é bom ou mesmo se é algo de que eu devesse me orgulhar, mas meu Marte em Áries é fodástico. É intensamente arisco e, ouriçadamente, incendiário! E, para me carma, nunca eclode um só fogo. Nesse exato instante, por exemplo, quero matar-te em mim e gozar em ti. Sim, sob a raiva a pino, subjaz o tesão que me liga a ti. E a raiva se intensifica, quando, mesmo irritada, quero transar contigo. E os dois fogos são tão intensos, que nenhum dos dois cede. Sua boca… Minha boca… Nossos beijos… Eu ainda estou irritada com você. Ainda… Amanhã, talvez, o amor acalme a guerra e Vênus reine sobre Marte. Amanhã… Só por hoje, não te matarei. Só por hoje, não usarei minha peixeira em ti. Só por hoje, tua carne permanecerá macia e quente. Amanhã, não sei dizer. Amanhã há de ser outro dia. Agora, o sono insiste em me carregar.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

No coração da mata

"No coração da mata" é o nono desenho (em ordem de criação) da série: De fogo e de asa; de fibra e flor: Mulher, de minha autoria.


A sexualidade é sagrada. O nosso fogo é sagrado. O meu corpo é sagrado. A minha vulva é sagrada. Sim, a minha vulva. Sou uma mulher.

Eu, com trinta anos, relaxo e deixo minha vulva respirar. Inclusive, estou sem calcinha, para que ela possa respirar o quanto queira. Não tem ninguém aqui comigo. Ninguém prestes a me sugar ou me penetrar. Teve ontem. Hoje, não. Hoje eu só quero relaxar. Nem vontade de me masturbar eu sinto. Sinto apenas minha vulva respirando. Como sinto! Fecho os olhos e abro as pernas, para sentir melhor. 

Minha vulva é uma concha semiaberta. Não sou mais virgem. Minha vulva, porém, se abre em flor, para respirar, como uma clareira no coração da mata. A flor, contudo, verte mel, transbordando fertilidade. Estou fértil, sim. Estou grávida de inúmeras ideias e projetos. Estou me recriando todo o tempo. 

Ah! Sinto o ar entrando e saindo. Sinto o sangue irrigando e circundando toda a vulva. Sinto esse sangue brotar e dançar em flores, ao redor da vulva. Sinto, pois, a área aquecer-se. O sangue é quente. Eu sou quente. 

Hmmm. Sinto uma leve excitação avolumar-se e contraio a pélvis. Não, não contraia! Respiro e abro novamente as pernas. Eu não preciso esconder o meu gozo. Não há de quem esconder. Então, relaxo e deleito-me. 

Sobre o leito, sinto minha carne macia e delicadamente terna, como um jardim de tulipas. Sinto-me, nesse instante, deveras primaveril, irradiando flores e sobejando mel. 

Agora, sinto uma leve sonolência. Estou tão conectada à minha feminilidade, que relaxo sobremaneira, imersa em meu ser mulher.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

L'Inverno Allegro: Renascendo do fogo


Eu, semente, na terra mais escura de meu âmago, lutei para romper a casca. Eu queria sair a todo custo. E debati-me, angustiosa, até tornar-me um brotinho. Parei. Respirei. Eu ainda não estava totalmente livre do invólucro. O allegro, contudo, impelia-me a subir à superfície. Então, respirei fundo mais uma vez e senti o brotinho crescer junto com a música. Sorrateiramente, vislumbrei a superfície e, com pouco, rompi a placenta geológica. Nesse momento, tornei-me o carvalho que sempre fui em essência. Ainda assim, ficou em mim algum resquício do invólucro. Resquício que só seria dissipado por palavras humanas.

A primavera chegou para mim quando me soube vista. E, ao saber-me afeto de olhos alheios, senti o sol de suas palavras aquecer-me por inteiro. Aqui, quando um coração pediu ao outro para abrir-se, os cristais de gelo que ainda protegiam meu peito começaram a dissolver. Vivenciei, então, a multiplicação das flores. Eu senti todas as minhas flores renascerem do fogo e transbordarem em cada olhar, cada sorriso, cada letra desenhada no papel ou em meu corpo. Quando mergulhei de cabeça neste sol, lembrei-me da semente e de seu medo de sair.

Em verdade, quando ainda na casca, eu julgava possuir o medo de entrar. Entretanto, quando consegui irromper a terra, percebi que o meu medo de fato era o de entrar e não conseguir sair, quando assim o desejasse. Eu tinha medo de me fundir demais e depois não conseguir desvencilhar-me. E, por muito tempo, isso me impediu de resplandecer e de me envolver. Trocando em miúdos, eu não me comprometia com nada nem com ninguém, porque eu tinha muito medo de ser barrada na saída, como fui no parto: eu quis sair às nove da manhã, mas só consegui sair ao meio-dia. E nem saí por meus próprios esforços. Fui cesárea. Em virtude disso, por muito tempo fui uma borboleta, que não sabia o que fazer com as próprias asas por não tê-las fortalecido na ruptura do casulo.

Não obstante, durante a semana, abri meu coração centenas de vezes para o amor e senti a borboleta enfim romper o casulo com suas próprias asas. Tanto assim que, no sábado, senti-me voando pelo salão, livre, leve e desinibida. Eu senti-me em chamas e deixei que o fogo crescesse e se pavoneasse. Não quero esconder-me mais um segundo sequer.  E, ao abrir peito e braços, senti que não havia mais o que abrir. Senti-me, ao contrário, completamente escancarada. Então, plena e nua, dancei para o meu amor; envolvi-o em minhas asas e cuidei do seu sonho tanto quanto entreguei-lhe o meu.

É nítido que estou impregnada de amor; que estou tão fusionada com este amor, que o sinto, mesmo quando ausente. Como seu coração pediu, ele é, agora, o sol que irradia em mim e por mim.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Autopoiesis mandalar

            Imersa em Contato e Carícias, produzi as duas mandalas acima. Apenas dois anos as separam. E veja quanta diferença!
            O núcleo d’ambas é flor. Eu sou flor. Contudo, em 2015, vemos uma flor mirradinha no centro e, ainda por cima, cercada por cristais pontiagudos. Com tais guardiães, pouquíssima coisa entrava ou saía. Já agora, em 2017, a flor central é quatro vezes maior do que a anterior. Além disso, é mais quente e exuberante. Esta flor em formato de estrela representa a minha Sexualidade, enquanto a de 2015 é a Afetividade. Ainda junto à flor de 2017, temos, ao invés de cristais pontiagudos, corações doces e ternos.
            Depois do núcleo em flor, temos, em 2015, uma outra flor. Já em 2017, temos uma borboleta de asas abertas. Eu sou esta borboleta, que está descobrindo e abrindo as próprias asas. Em 2015, porém, logo em seguida à segunda flor, temos uma redoma circular, fechando o centro da mandala. A Sexualidade, aqui, está representada por um singelo carmim ao fundo deste centro.
            Em volta da redoma, em 2015, temos pétalas irregulares e rosáceas, formando uma terceira flor. Estas pétalas são a expressão da minha Afetividade, ou seja, o que eu demonstrava à época. Já em 2017, temos uma fonte d’água jorrando por trás da borboleta, para só então vir o fechamento do centro, em forma de triângulo. Um triângulo invertido, que, justamente por ser invertido, me remete ao útero.
            Quanto à borda, em 2015, temos vários pássaros namorando, mas os casais não interagem uns com os outros nem com a flor. Eles são os outros. Os outros, os quais sinto felizes, como se esta felicidade não fosse um direito meu também. Já em 2017, temos fogo. Um anel de fogo. As chamas são as couraças que ainda resistem. Não obstante, o bloqueio já está sendo rompido pelas asas da borboleta.
            A diferença mais gritante entre uma mandala e outra, contudo, é a forma. Enquanto a de 2015 foi construída dentro de uma estrutura quadricular, a de 2017 nasceu dentro de um círculo. Isto denota a flexibilização da estrutura interna, que está cada dia mais suave e amorosa. Ademais, revela a disposição para aceitar os ciclos e fluir ininterruptamente.
            É, portanto, notável a expansão ocorrida nestes dois anos. Vemos a Sexualidade incorporada e expressa. Vemos também o surgimento de elementos novos, como a borboleta e a água. A borboleta é a expressividade, a Criatividade à flor da pele. E a água representa a geração de vida.
            E a expansão continua. Estou expandindo cada vez mais e expandirei cada vez mais, autopoiética que sou.

domingo, 25 de junho de 2017

Autopoiesis II

Foto by: Pedro Felipe

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia
(Oswald de Andrade)


       Autopoiesis. Autopoesia. Somos seres poéticos. Autopoiéticos. Às vezes, porém, nos esquecemos disso. De quando em quando, temos a ilusão de que nada muda, inclusive e principalmente, nós.
       Autopoiesis. A poesia está dentro, não fora. Está em nosso coração. Mesmo naquele dia em que chovemos; mesmo quando nossa visão se turva e acreditamos piamente que nunca iremos mudar.
     Autopoiesis. A poesia somos nós. Mesmo quando choramos; mesmo quando nos irritamos e relampejamos. E, até mesmo, quando nos envergonhamos de ser quem somos.
     Autopoiesis. A poética da existência está no olhar. A poética do olhar é o olhar poético que lançamos ao mundo.
      Autopoiesis. Não precisa ser poeta para enxergar a poética da existência. Basta reconhecer-se poesia.
      Autopoiesis. Autopoesia. Somos versos de nós mesmos. Somos poetas de nossa própria existência. Mesmo naqueles dias em que escrevemos maus versos. Mesmo quando somos dissonantes e não sentimos a música em nós.
            Autopoiesis. Autopoeme-se.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer

Foto by: Pedro Felipe

Transcender é esquecer. Sim, é exatamente isso: transcender é esquecer. É deixar pra trás o dito. É simplesmente largar; da memória apagar. É tão-somente ir, fluir. Fluir é seguir o rio. Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

Esquecer é transcender, desprender-se do ocorrido. Renovar-se e ser outro. Limpar-se da chuva de ontem e curtir, por ora, o sol. Despegar-se do passado, assim como do futuro, e viver o rio que aflora. Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

Transcender e esquecer. Esquecer e transcender. Já Heráclito dizia que nunca é o mesmo homem nem o mesmo rio a passar. Assim sendo, para ser novo, o ser humano deixa ir o que já deixou de ser. Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

Transcender seria, portanto, desconstruir, descomplicar. Simples: é não cristalizar, não tornar eterno o efêmero. É eterno o instante, tão-somente enquanto dura. Depois disso, é memória. Todavia, cabe lembrar: para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Ser-estrela


            Ser-estrela. Ser estrela. Uma estrela de cinco pontas, é isso o que somos. De braços abertos, de pés levemente separados e a cabeça erguida a olhar o horizonte, somos uma estrela perfeita.
            Ser-estrela é muito mais do que uma posição geratriz. É uma atitude frente à Vida. De braços estendidos, abrimos totalmente o peito.  De peito aberto, o coração se expande e temos condições de dar e receber afeto. Com a caixa torácica livre de compressões, respiramos mais e melhor. Ainda com o peito aberto, dizemos ao Universo que estamos dispostos a receber. Sim, estamos dispostos a acolher o porvir, sejam as rosas, sejam os desafios. Os pés, ligeiramente separados, nos dão a sustentação necessária. A terra, nossa Grande-mãe, nos beija os pés descalços e nos nutre com a sua força milenar. Com os dedos bem enraizados no chão, estamos plenamente conscientes do aqui-agora e conseguimos, enfim, degustar o presente. Já a cabeça, erguida, nos conecta a um horizonte de infinitas possibilidades. Sentindo-nos capazes de transformar o nosso mundo, somos realmente capazes de fazê-lo. Afinal, nada está fora. Tudo está dentro.
            Ser-estrela, como a posição geratriz que é, gera mais vida dentro e fora de nós. Ser-estrela nos permite conectar com a nossa luz interior, que é própria e intransferível. E esta se reflete no olhar encantado e no sorriso amigável. A Vida é essencialmente amorosa e receptiva. Que possamos ser assim também. Isto é Ser-estrela.

domingo, 13 de novembro de 2016

A criatividade

            
              A criatividade é essencialmente feminina, pois ela é a capacidade de gestar ideias e dar-lhes à luz. O ser criativo, portanto, é extremamente fecundo. E toda esta fertilidade representa o aspecto feminino, que todos temos dentro de nós, independentemente de sermos homens ou mulheres. Este aspecto feminino de nossa psique, o Jung chama de anima. Contudo, para que as ideias gestadas sejam materializadas e possam ganhar o mundo, precisamos do aspecto masculino da psique: o animus. Por conseguinte, enquanto a anima busca a ideia em sua fonte primordial e a gesta, o animus mobiliza a energia necessária para que esta ideia ganhe corpo e se transforme em textos, telas e inventos de toda ordem. Assim sendo, os dois aspectos precisam estar em harmonia para que sua fusão ocorra. Caso contrário, a pessoa pode ter muitas ideias e ideias muito boas, mas não conseguir executar nenhuma delas, pois pensamento e ação não estão integrados.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O abraço da Biodanza

Fotografia: Flávio Menezes

            No abraço biocêntrico, é exatamente a vida quem está no centro. Não são braços frouxos, sem vitalidade, que nos abraçam. Mas sim braços acolhedores e carinhosos que nos envolvem.
            No abraço biocêntrico, o prazer também está presente. O prazer de sentir o outro; de sentir braços tão amorosos nos manter junto a si e nos aquecer nutritivamente. Sexualidade, então, não é só sexo. Sexualidade é prazer. Prazer de viver, de sentir, de abraçar.
            No abraço biocêntrico, somos criativos. Mais do que isso: somos autopoiéticos. Recriamos padrões antigos e reelaboramos sentimentos. Aprendemos a chegar e a partir com suavidade. Aprendemos que abraço não é força. É presença. A criatividade, portanto, está em cada momento, em cada movimento nosso.
            No abraço biocêntrico, o afeto impera. O vínculo afetivo nasce no encontro dos olhares, cresce no diálogo das mãos e desabrocha no enlaçar dos corações. Não estamos aqui para competir com ninguém, e sim para cuidar e nutrir o outro. Isso é afetividade.

            No abraço biocêntrico, transcendemos nossos limites, nossos medos. Somos um com quem abraçamos. Somos um com o Amor. Assim, transcendência nada mais é do que nos permitirmos esta fusão com o outro e com o Amor.

domingo, 31 de julho de 2016

Dias de mãe


            É ótimo ser filho. É muito, muito bom ser filho. Até o dia em que nossa mãe adoece.
            Ser mãe não é fácil. Ser “mãe” da mãe, muito menos. Não é fácil inverter os papéis e ficar nesse lugar de cuidadora. Ainda mais quando a sua mãe não se permite ser cuidada e, mesmo doente, continua orientando tudo o que precisa ser feito; não largando, nem por um segundo, este lugar de mãe.
            Talvez seja ligeiramente mais fácil ser mãe de um bebê, que não sabe nada sobre o mundo, do que ser “mãe” da mãe, ou seja, de alguém com todo um sistema de crenças e valores já sedimentado.
            A propósito, quando nós nascemos (a maioria de nós, pelo menos), nossa mãe já era adulta. E nós, inocentes em nossa fragilidade infante, crescemos sabendo – ou pensando que sabemos – que nossa mãe é capaz de cuidar de si. Em nossa visão infantil, a mãe é uma mulher impressionante, com poderes fantásticos. É incrível como ela cuida de si, da casa e de todo mundo. Mas, um dia, nossa mãe adoece. Neste momento, não sabemos ser filhos. Nem mães.
            Quando minha mãe teve chikungunya, foi a vez em que a vi mais fragilizada. Tamanha era a dor que sentia, que parecia uma criança assustada. Aquela cena me deu uma aflição tão grande! Eu não fazia ideia de como cuidar dela. Entretanto, por vários dias, durante a chamada fase aguda da doença, eu precisei ser a mãe da relação. E, por mais que eu me esforçasse, parecia não ter habilidade nenhuma para cuidar de quem quer que fosse, avalie ser “mãe” de minha mãe.
            Desde pequena, eu tinha a sensação de que mainha não precisava de ninguém para cuidar dela. Ela era forte e determinada e podia muito bem dar conta de si. Ao menos era isso o que eu pensava. E eu cresci um pouco assim também, porque a fragilidade humana nos assusta. Muito. Não queremos ser frágeis. Não queremos ser vistos como frágeis. E, talvez por isso, esses dias de mãe tenham mexido tanto comigo.
            Eu não sou mais a mesma de antes desta experiência. Entretanto, ainda mão me sinto capaz de cuidar do outro. Na verdade, ainda estou aprendendo a cuidar e a me permitir ser cuidada.