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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

A ferida sagrada que nos dá força

 

Desenho de autoria própria


Há uma ferida em meu peito e eu não sei o que fazer com ela. Sou uma espécie de Prometeu acorrentado ao Cáucaso de minhas memórias, onde os abutres vêm me visitar sempre que me penso curada desta chaga. Eu queria que algum Hércules me salvasse e a ferida sarasse por completo. Porém, eu mesma terei de fazer o trabalho hercúleo de curar-me.

A ferida em meu peito não sangra mais, mas lateja de quando em quando. E, naquele inexorcizável três de agosto, calhou de doer novamente. Depois de tanto tempo, esta data ainda é o maior abutre de todos. O dia em que nós terminamos, ou melhor, que eu terminei com aquele ser que não quero dizer o nome (e nem xingá-lo). Fato é que o fogo de minha paixão juvenil converteu-se nesta chaga que hoje ostento.


Tenho trinta e poucos anos, mas, de tão amarga, aparento o dobro. Até quando, meu Deus? Até quando vou me culpar por essa escolha infeliz? Já são nove anos. Eu já deveria ter superado isso. Eu já deveria ter virado essa página e amado outro alguém. Não sei mais o que fazer. Pai, cura essa chaga de amor em meu peito. Cura essa ferida que me impede de amar novamente.


Eu queria curar essa ferida de uma vez por todas e me livrar dela. Na verdade, queria que ela nunca tivesse existido. Assim, eu não precisaria me preocupar com ela ― e, muito menos, senti-la latejar de quando em quando. Todavia, uma chaga de amor não é uma perna quebrada, que você toma anti-inflamatórios, passa um tempo com a perna engessada e, semanas depois, está novinho em folha, saltitando por aí. Uma chaga de amor é para sempre. Sempre vamos levar essa cicatriz no peito, mesmo depois da ferida desinflamar. E, por mais trágico que isso possa soar, não há nenhum deus, semideus ou herói que possa nos libertar e fazer a ferida magicamente desaparecer.


Há, no entanto, uma boa notícia: “depois de um tempo, ela vira uma ferida sagrada, que nos dá força”, como disse um amigo meu, certa feita. E, mesmo que essa ferida nunca se feche por completo e que continue latejando esporadicamente para o resto de nossas vidas, é possível amar infinitas vezes. Sim, é possível. Eu só preciso aprender a amar apesar dela, ao invés de me esconder nesta torre, como se fora um monstro disforme e purulento. Ademais, eu não sou a única a ostentar uma chaga de amor em meu peito, nesta terra de corações esburacados.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

No coração da mata

"No coração da mata" é o nono desenho (em ordem de criação) da série: De fogo e de asa; de fibra e flor: Mulher, de minha autoria.


A sexualidade é sagrada. O nosso fogo é sagrado. O meu corpo é sagrado. A minha vulva é sagrada. Sim, a minha vulva. Sou uma mulher.

Eu, com trinta anos, relaxo e deixo minha vulva respirar. Inclusive, estou sem calcinha, para que ela possa respirar o quanto queira. Não tem ninguém aqui comigo. Ninguém prestes a me sugar ou me penetrar. Teve ontem. Hoje, não. Hoje eu só quero relaxar. Nem vontade de me masturbar eu sinto. Sinto apenas minha vulva respirando. Como sinto! Fecho os olhos e abro as pernas, para sentir melhor. 

Minha vulva é uma concha semiaberta. Não sou mais virgem. Minha vulva, porém, se abre em flor, para respirar, como uma clareira no coração da mata. A flor, contudo, verte mel, transbordando fertilidade. Estou fértil, sim. Estou grávida de inúmeras ideias e projetos. Estou me recriando todo o tempo. 

Ah! Sinto o ar entrando e saindo. Sinto o sangue irrigando e circundando toda a vulva. Sinto esse sangue brotar e dançar em flores, ao redor da vulva. Sinto, pois, a área aquecer-se. O sangue é quente. Eu sou quente. 

Hmmm. Sinto uma leve excitação avolumar-se e contraio a pélvis. Não, não contraia! Respiro e abro novamente as pernas. Eu não preciso esconder o meu gozo. Não há de quem esconder. Então, relaxo e deleito-me. 

Sobre o leito, sinto minha carne macia e delicadamente terna, como um jardim de tulipas. Sinto-me, nesse instante, deveras primaveril, irradiando flores e sobejando mel. 

Agora, sinto uma leve sonolência. Estou tão conectada à minha feminilidade, que relaxo sobremaneira, imersa em meu ser mulher.