sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Um quase não tempo



A harmonia que impregna o mundo ao amanhecer é translúcida e palpável. Essa harmonia é tão sublime que é quase um não tempo. Este não tempo pinga como “Für Elise” ao piano. Contudo, pela janela do ônibus, ressoa das árvores sua pulsação. Seu contentamento é uma espécie de Allegro silencioso. Ao menos começa silencioso enquanto estamos no não tempo. A melodia, aguda e urgente, ainda dorme. Por isso a harmonia é tão tangível. Tanto, que parece que este mundo ainda não foi criado. Ou, talvez, mais provável é que os homens ainda dormem. Dormem e perdem este paraíso.
Este amanhecer tão harmonicamente sutil é um Noturno, de Chopin. Mas o mundo já foi criado e os homens precisam reviver seus automatismos miseráveis. É uma pena que a harmonia seja inaudível para alguns. Se ao menos as turbas tivessem a surdez sensível de Beethoven. Em vez disso, as criaturas, ao acordarem, esfacelarão a harmonia com suas dissonâncias e estridências.
Fecho os olhos. A harmonia ainda está aqui. É cedo e está chovendo. O não tempo pode se estender mais um pouco, antes que recomece a 5ª Sinfonia de Beethoven que é este mundo, especialmente esta ilustre província da qual sou filha.
Não obstante, eu própria reconheço que estou mais para Beethoven do que para Bach. Esta harmonia que meus ouvidos moucos tiveram a outorga divina de sorver não me pertence. É do Todo. É o Todo. Eu ainda sou muito geniosa para impregnar-me desta harmonia translúcida e palpável, como a manhã fez.
Desço do ônibus e logo me aborreço. Pronto. Se fui harmonia por brevíssimos minutos, já voltei a ser disritmia. A harmonia, porém, sobrevive em mim como lembrança. Lembrança de que, enquanto o caos dorme, é possível ouvir a harmonia de Deus. 

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