A harmonia que
impregna o mundo ao amanhecer é translúcida e palpável. Essa harmonia é tão
sublime que é quase um não tempo. Este não tempo pinga como “Für Elise” ao
piano. Contudo, pela janela do ônibus, ressoa das árvores sua pulsação. Seu
contentamento é uma espécie de Allegro silencioso. Ao menos começa silencioso
enquanto estamos no não tempo. A melodia, aguda e urgente, ainda dorme. Por
isso a harmonia é tão tangível. Tanto, que parece que este mundo ainda não foi
criado. Ou, talvez, mais provável é que os homens ainda dormem. Dormem e perdem
este paraíso.
Este amanhecer
tão harmonicamente sutil é um Noturno, de Chopin. Mas o mundo já foi criado e
os homens precisam reviver seus automatismos miseráveis. É uma pena que a
harmonia seja inaudível para alguns. Se ao menos as turbas tivessem a surdez
sensível de Beethoven. Em vez disso, as criaturas, ao acordarem, esfacelarão a
harmonia com suas dissonâncias e estridências.
Fecho os
olhos. A harmonia ainda está aqui. É cedo e está chovendo. O não tempo pode se
estender mais um pouco, antes que recomece a 5ª Sinfonia de Beethoven que é
este mundo, especialmente esta ilustre província da qual sou filha.
Não obstante, eu
própria reconheço que estou mais para Beethoven do que para Bach. Esta harmonia
que meus ouvidos moucos tiveram a outorga divina de sorver não me pertence. É
do Todo. É o Todo. Eu ainda sou muito geniosa para impregnar-me desta harmonia
translúcida e palpável, como a manhã fez.
Desço do
ônibus e logo me aborreço. Pronto. Se fui harmonia por brevíssimos minutos, já voltei
a ser disritmia. A harmonia, porém, sobrevive em mim como lembrança. Lembrança
de que, enquanto o caos dorme, é possível ouvir a harmonia de Deus.

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