Cansada de esperar, Ariadne adentrou o Labirinto. Seus olhos tremiam de medo e euforia. Queria submergir no mais profundo dos olhos do Minotauro e ver tudo o que tivesse para ser visto a respeito de si mesma. Porém, titubeou um instante: “Mas… e se o Labirinto me engolir?”. Ele a engolirá, não duvide. Todavia, use o fio para regurgitar-se em segurança. Mais que depressa, ela amarrou uma de suas pontas à entrada e começou a tecer-se.
Confiando no fio, Ariadne caminhou serena e convicta. Seus olhos, contudo, não chamavam a morte. Não. Seus olhos ansiavam pelo poder e força do Minotauro. E, a cada passo que dava, mais do fio ficava para trás. Quanto mais avançava, menos se lembrava de Teseu; menos queria sua presença ali. Para quê? Para matar seu segredo? Não! Ariadne precisava descobri-lo ontem!
Numa esquina desatenta, Ariadne esbarrou na criatura; fitou-a e gaguejou o próprio nome: A-ri-ad-ne. O Minotauro ensurdeceu. A voz de Ariadne bruxuleava. O que fazer? A jovem, então, gritou. E gritou seu nome cada vez mais alto até o Minotauro se convencer da força que Ariadne tinha.
- O que você quer? Quer me aniquilar, como os outros? - antecipou-se o Minotauro.
Ariadne estacou. Sabia que o “não” ressoava dentro de si, mas não conseguia, não conseguia. Mal conseguira dizer o seu nome sem gaguejar!
- E então? O que quer de mim? - impacientou-se o Minotauro.
Ariadne, então, fincou os olhos na criatura e, por um longuíssimo segundo, temeu titubear. Pior: sentiu que diria “não” sorrindo, como sempre fizera. No entanto, contrariando suas próprias expectativas e receios, Ariadne proferiu com toda firmeza e determinação de que dispunha:
- Eu não vim matar você! Eu não quero matar você! Eu não vou matar você! Eu quero que você seja parte de mim! - O Minotauro olhou-a de volta, ainda não totalmente convencido de sua assertiva.
- Caminhe - ordenou-lhe. - Convença-me de que pode expressar a mim.
Ariadne dividiu-se. Como poderia, em seu passo miúdo, expressar uma criatura que tinha o dobro do seu tamanho e o triplo da sua força? A jovem, então, recolheu-se em si; respirou. Reunindo toda a sua força e coragem, Ariadne cerrou os punhos e se pôs a caminhar no centro do Labirinto. O Minotauro, cético, fixava as passadas cada vez mais largas e convincentes de Ariadne. Era tanta energia, tanta energia, que a jovem ameaçou chorar, mas foi apenas uma ameaça. Quando suspendeu o passo, o Minotauro a provocou:
- E se Teseu chegasse e me matasse?
A jovem começou a inflar e ruborizar, até que gritou:
- NÃO! NÃO ADMITO! Não permito que ele mate o que eu tenho de mais precioso! NÃO, NÃO e NÃO!
- E se eu me autoaniquilar? - desafiou-a mais uma vez.
- Eu não permito - asseverou Ariadne, com fogo nos olhos.
- Você crê me impedir? - Ariadne assentiu sem esmorecer. - Então me mostre o quanto você está disposta a defender minha existência.
O fogo nos olhos da jovem ascendeu cada vez mais e tomou-lhe todo o corpo. Seu olhar era incisivo o suficiente para matar um. Suas mãos transfiguraram-se em garras afiadas e ágeis. Seu rugido trovejava de tal forma, que todo o seu corpo vibrava, ressoando-o.
- Muito bem. Estou convencido de que você me defenderá - revelou o Minotauro. - Agora fique aqui e só saia quando eu disser que pode. - Ariadne, belicosa, fulminou-o com o olhar.
- Não fico. Não preciso ficar, se eu não quiser - enfrentou-o.
- Não vai ficar? Tem certeza? Veja como essa quina é agradável! - insistiu o Minotauro.
- Eu não quero - persistiu a jovem.
- Pois bem. Eu vou com você - assegurou ele. - Vou, porque agora sei que, além de não vai me matar, você irá me nutrir.
Ariadne assentiu com um discreto gesto de cabeça. Em seguida, a vimos sair do Labirinto, una com o Minotauro.
Eu sou Ariadne e essa é a história de como eu abracei o meu Minotauro.

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