sábado, 22 de junho de 2019

Um prazer deveras bacante


Eu amo escrever à mão. Amo! Nestes vinte anos de ofício, eu sempre escrevi à mão. Sempre. E continuei escrevendo à mão, mesmo depois da popularização dos computadores e, consequentemente, dos editores de texto.

Eu amo escrever à mão. Amo! Amo desenhar as letras no papel, uma a uma. Ao me permitir amar as palavras através dele, aquele papel, antes totalmente branco e incólume, faz reverberar em mim um prazer orgiástico. Que prazer inenarrável deitar o lápis sobre a folha e fazer eclodir nela lágrimas, sangue e suor!

Eu amo escrever à mão. Amo! Apenas no início dos anos 2000, quando tive acesso a um computador, foi que comecei a digitar as minhas histórias e a salvá-las em disquetes. No entanto, eu nunca abandonei o hábito de escrever à mão. Tanto é assim, que adotei o seguinte método: eu escrevo a primeira versão do texto à mão; em seguida, eu edito esse primeiro rascunho; e só digito quando sinto que finalizei o texto e que alcancei o resultado que eu queria. É verdade que tal procedimento dobrou ou mesmo triplicou o meu trabalho como escrevinhadora. Entretanto, raríssimas vezes consigo escrever diretamente no computador. O computador, com todas as suas janelas para o mundo, me dispersa sobremaneira. Enquanto isso, o lápis e o papel me convidam para um mergulho em águas profundas.

Eu amo escrever à mão. Amo! Para mim, trata-se de uma verdadeira alquimia que, de uma mente turbulenta como a minha, eu consiga extrair ideias tão resplandecentes. É, de fato, a transformação do chumbo em ouro, isto é, do caos em luz. Porém, isso só é possível se eu mergulhar fundo no texto que estou escrevendo. Por isso, mesmo tendo um trabalho duplo ou triplo, eu não me abstenho de escrever à mão.

Eu amo escrever à mão. Amo! E não digo isso com o intuito de parecer cult ou underground. Muito menos por ser resistente à tecnologia ou mesmo por um capricho quixotesco em prol do retorno da escrita manual. Não. Eu não posso exigir que ninguém ame escrever à mão, como eu amo.

Eu amo escrever à mão. Amo! Quando escrevo à mão, eu me sinto úmida. Eu sinto que a minha alma volta a vicejar depois de um longo e hostil inverno. Para mim, escrever à mão é um prazer deveras bacante. Prazer este que, no que depender de mim, as tecnologias nunca conseguirão me roubar.


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