segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Anima


Eu oscilo entre a terra e o fogo; entre a carne e o espírito. Eu sou o suculento e o numinoso. Eu sou o dito e o não dito. Eu sou o visível e o invisível nas entrelinhas.

Eu oscilo entre enraizar e eclodir. Eu quero descer às entranhas do vulcão e chegar o mais próximo possível do céu. Mas eu tenho medo de ser imprudente como Ícaro. Eu tenho medo de me aproximar demais do fogo e perder as minhas asas.

Eu oscilo entre o cultivo e a emanação. Eu teço e desteço sonhos e necessidades, sem coragem de entrar no labirinto. Um labirinto sem portas ou paredes, que pode ser um jardim ou um charco; um sonho ou um pesadelo. Posso arriscar? A natureza do onírico é essencialmente labiríntica.

Eu oscilo entre a prudência e a euforia. Eu quero guardar energia para quando o inverno da alma chegar, mas me sinto profundamente tentada a gastar todo o meu suprimento nestes dias de alegria veranil.

Eu oscilo entre o resguardo do que penso e sinto e a autopermissão para que o fogo se alastre. Eu sou uma borboleta prestes a alçar voo. Meus pés, porém, hesitam em deixar o chão.

Eu oscilo entre ser e parecer; entre suar e ressoar. Eu visto a mesma música há tantos anos, que já esqueci a minha melodia original. Há mais de vinte anos longe de casa, eu lembro com nostalgia o perfume anímico que soterrei.

Eu oscilo entre a terra e o fogo. Eu ainda não aprendi a ser água. Eu ainda não aprendi a fluir e, neste fluir, contornar todos os obstáculos até o meu transbordo.

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