segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Anima


Eu oscilo entre a terra e o fogo; entre a carne e o espírito. Eu sou o suculento e o numinoso. Eu sou o dito e o não dito. Eu sou o visível e o invisível nas entrelinhas.

Eu oscilo entre enraizar e eclodir. Eu quero descer às entranhas do vulcão e chegar o mais próximo possível do céu. Mas eu tenho medo de ser imprudente como Ícaro. Eu tenho medo de me aproximar demais do fogo e perder as minhas asas.

Eu oscilo entre o cultivo e a emanação. Eu teço e desteço sonhos e necessidades, sem coragem de entrar no labirinto. Um labirinto sem portas ou paredes, que pode ser um jardim ou um charco; um sonho ou um pesadelo. Posso arriscar? A natureza do onírico é essencialmente labiríntica.

Eu oscilo entre a prudência e a euforia. Eu quero guardar energia para quando o inverno da alma chegar, mas me sinto profundamente tentada a gastar todo o meu suprimento nestes dias de alegria veranil.

Eu oscilo entre o resguardo do que penso e sinto e a autopermissão para que o fogo se alastre. Eu sou uma borboleta prestes a alçar voo. Meus pés, porém, hesitam em deixar o chão.

Eu oscilo entre ser e parecer; entre suar e ressoar. Eu visto a mesma música há tantos anos, que já esqueci a minha melodia original. Há mais de vinte anos longe de casa, eu lembro com nostalgia o perfume anímico que soterrei.

Eu oscilo entre a terra e o fogo. Eu ainda não aprendi a ser água. Eu ainda não aprendi a fluir e, neste fluir, contornar todos os obstáculos até o meu transbordo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

A arte como tortura

Desenho by: M. C. Escher
Quando Viktor Chklovski pensou a arte como procedimento, ele não presumiu que o obscurecimento da forma pudesse ser usado como tortura. Primeiramente, como autotortura, ou seja, o próprio artista torturando a si para encontrar a imagem poética perfeita e não familiar. E, em segundo lugar, uma tortura chinesa disfarçada de amor. Acredito, sinceramente, que Chklovski não imaginou que o seu conceito de obscurecimento da forma seria usado de maneira tão torpe pelos casais, nos quais um dos parceiros sente-se no direito de determinar a poética do outro. Sim, eu conheci o obscurecimento da forma como tortura, antes de conhecer o conceito cklovskiano.

Meu ex-namorado é poeta. Um poeta que, à época, criava imagens poéticas muito bonitas, mas muito herméticas. Eu me embevecia com seu hermetismo, mas a minha escrita ainda era uma prostituta inexperiente, que se dá para qualquer um, sem se importar com a procedência do sujeito. E eu gostava da minha escrita assim. Eu me regozijava sobremaneira com a sua entrega. Eu só não me conformo de ter entregue a minha arte para aquele Hermes traidor.

Certa vez, inventei de converter minhas descobertas sexuais com ele em literatura. Mesmo ainda muito tímida, consegui transbordar no papel todo o meu encantamento e gozo. Que júbilo! Senti uma felicidade tão bonita, que quis dividi-la com ele. Eu era deveras ingênua. Eu não imaginava que ele fosse um Hermes traidor. Pois bem. Ele ouviu a primeira cena do romance e iniciou sua tortura: "Você precisa escrever de um jeito que ninguém desconfie que está falando de nós dois". Parece óbvio, e é, que havia uma segunda história cifrada aí. Essa narrativa subterrânea dizia que a minha escrita precisava ser tão hermética quanto a dele não por uma questão estética ou estilística, mas por uma razão (anti)ética: ele queria permanecer livre para outras aventuras amorosas, concomitantes a mim. Por isso, eu fui terminantemente proibida de enredá-lo em minha poesia.

Eu poderia, se quisesse, falar dos bambus performáticos e de todo o nosso arsenal de carícias. Sim, eu poderia me expor o quanto quisesse. Eu poderia, inclusive, se esta fosse a minha vontade, colocar minha alma inteiramente nua sobre a gramática. Mas ninguém jamais poderia sequer desconfiar de que era com ele que eu gozava em meus textos. Logo, eu não poderia revelar nada que fizesse o leitor chegar até ele. E eu, apaixonada e imatura, cedi aos seus temores. Então, cifrei minha escrita o quanto pude, pois esta era a única forma de eu poder me derramar na literatura e, além disso, manter o nosso pseudo-relacionamento.

Desta forma, com uma linguagem cada vez mais fabulosa e truncada, eu me afastei da Fonte e me perdi de mim. Eu não sabia mais que poética era a minha e que poética era uma imposição dele sobre a minha escrita. Tanto que, quando terminamos, eu não conseguia escrever uma vírgula tamanho o bloqueio criativo que experimentei. Eu de fato havia desaprendido o caminho para a Fonte e sequei.

Apenas em 2012, quando conheci o Chklovski, foi que eu descobri que não precisava sofrer tanto assim para obscurecer a forma e criar imagens poéticas interessantes e provocativas. Ainda com o formalista russo, aprendi que posso recorrer a diferentes níveis de obscurecimento da forma, dependendo do tipo de texto que eu esteja trabalhando ou do efeito que eu pretenda alcançar.

Já com o Hermes traidor, aprendi a respeitar a minha escrita. Aprendi que a minha poética é minha e só eu posso alterá-la, se esta for a minha vontade. Aprendi ainda que não posso dar a ninguém o poder de me afastar da Fonte novamente.

sábado, 22 de junho de 2019

Um prazer deveras bacante


Eu amo escrever à mão. Amo! Nestes vinte anos de ofício, eu sempre escrevi à mão. Sempre. E continuei escrevendo à mão, mesmo depois da popularização dos computadores e, consequentemente, dos editores de texto.

Eu amo escrever à mão. Amo! Amo desenhar as letras no papel, uma a uma. Ao me permitir amar as palavras através dele, aquele papel, antes totalmente branco e incólume, faz reverberar em mim um prazer orgiástico. Que prazer inenarrável deitar o lápis sobre a folha e fazer eclodir nela lágrimas, sangue e suor!

Eu amo escrever à mão. Amo! Apenas no início dos anos 2000, quando tive acesso a um computador, foi que comecei a digitar as minhas histórias e a salvá-las em disquetes. No entanto, eu nunca abandonei o hábito de escrever à mão. Tanto é assim, que adotei o seguinte método: eu escrevo a primeira versão do texto à mão; em seguida, eu edito esse primeiro rascunho; e só digito quando sinto que finalizei o texto e que alcancei o resultado que eu queria. É verdade que tal procedimento dobrou ou mesmo triplicou o meu trabalho como escrevinhadora. Entretanto, raríssimas vezes consigo escrever diretamente no computador. O computador, com todas as suas janelas para o mundo, me dispersa sobremaneira. Enquanto isso, o lápis e o papel me convidam para um mergulho em águas profundas.

Eu amo escrever à mão. Amo! Para mim, trata-se de uma verdadeira alquimia que, de uma mente turbulenta como a minha, eu consiga extrair ideias tão resplandecentes. É, de fato, a transformação do chumbo em ouro, isto é, do caos em luz. Porém, isso só é possível se eu mergulhar fundo no texto que estou escrevendo. Por isso, mesmo tendo um trabalho duplo ou triplo, eu não me abstenho de escrever à mão.

Eu amo escrever à mão. Amo! E não digo isso com o intuito de parecer cult ou underground. Muito menos por ser resistente à tecnologia ou mesmo por um capricho quixotesco em prol do retorno da escrita manual. Não. Eu não posso exigir que ninguém ame escrever à mão, como eu amo.

Eu amo escrever à mão. Amo! Quando escrevo à mão, eu me sinto úmida. Eu sinto que a minha alma volta a vicejar depois de um longo e hostil inverno. Para mim, escrever à mão é um prazer deveras bacante. Prazer este que, no que depender de mim, as tecnologias nunca conseguirão me roubar.


sexta-feira, 24 de maio de 2019

A Inspiração



Silencia e escuta. Respira. Escuta. Abre todos os ouvidos da tua pele. Abre todos os canais sensitivos da tua alma. A Inspiração já está aí. Silencia. Ela quer falar-te. Aquieta. A Musa só é audível no silêncio. 

Ouve o inaudível. Regressa à Fonte. É de lá que a Musa emerge para embriagar-te. Silencia e escuta. Esquece, por alguns minutos, que o aluguel vence amanhã. Esquece o mundo. Na Fonte, tudo cresce e prospera. Ouve. Entrega-te à Harmonia. 

Entorpece-te de ti mesmo. Ouve o silêncio que habita em ti. Até Deus descansou ao sétimo dia. Descansa tua alma na Fonte e ouve a Musa. Ouve a lira de Orfeu, que encanta até o Hades. Aquieta-te, criança. Serena a tua mente para ouvir. 

Cessa o pensamento um instante. É o sentir que te conecta à Musa. Esquece a linguagem acadêmica, por ora. Esquece todas as teorias e sê apenas uma alma humana. Não há o que explicar. Acalma-te. A Musa anseia tão somente a tua entrega. 

Respira. Cerra teus olhos e submerge na Fonte. Desce ao cerne de tua consciência e regressa ao silêncio. Em tua infinitude particular, transborda e esvazia simultaneamente. 

Ouve. A Inspiração é isto: o inexplicável, o numinoso. Ouve. É acessando o intangível, que podes transformar o sensível em palavras. 

Desarma-te. Baco te chama. Baco te inflama. Aceita esse bacanal em ti. Aceita a tua condição bacante. Permite que as ideias dancem o quanto queiram. Depois editas. Embriaga-te primeiro. Entrega-te ao êxtase e deixa a Musa falar através de ti. Depois editas. 

Aquieta. Silencia e ouve. Esquece a técnica. Esquece as fórmulas. Há um só caminho: render-te à Musa. Não precisas ser um expert em nada. Não precisas dominar qualquer técnica. Apenas sentir. E sentir com tal intensidade, que consigas revelar o sensível a quem ainda não o conhece. 

Silencia mais um pouco e ouve-me. Tu és a Fonte. Tu, criança, és a única responsável por alimentar a Musa. Silencia e a alimenta. Nutre a Fonte que és. Aquieta teus temores. A Fonte não secará tão cedo. Aquieta. Aquieta e ouve o que não digo.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Linha cruzada

(Foto: Thinkstock)

       Em um de seus livros, Evanildo Bechara afirma que precisamos ser poliglotas de nossa própria língua, ou seja, que conheçamos tão bem a língua portuguesa, que sejamos capazes de moldá-la a qualquer situação de uso. Entretanto, quando estamos aprendendo uma segunda língua, às vezes, acontece de dar linha cruzada no cérebro.
       Os mais novos talvez desconheçam a expressão “linha cruzada”, mas vou explicar o fenômeno. Ocorre a linha cruzada quando duas chamadas telefônicas se misturam. Hoje, com aparelhos celulares mais aperfeiçoados e tecnologias mais precisas, a linha cruzada tornou-se rarefeita. Já a linha cruzada cerebral, sináptica, parece-me cada vez mais amiudada. Começando por mim.
       Este ano, 2019, eu estou completando vinte anos de escrita literária e sete, de escrita acadêmica. Ainda hoje, dá linha cruzada entre as duas. Quantas vezes não me flagrei escrevendo como escritora os meus trabalhos acadêmicos? Quantas vezes meu orientador não me disse, desde o primeiro período do curso, que eu preciso separar a escritora da acadêmica? Mesmo assim, ainda dá linha cruzada entre as duas.
       Eu escrevo como se o leitor já soubesse o que vou dizer e eu não precisasse dizer tudo. Às vezes, porém, escrevo omitindo informações, para poder redirecionar a história depois. Também acontece, aqui e ali, de eu cruzar campos semânticos, tempos, lugares e eventos, para, deliberadamente, criar ambiguidades e confundir o leitor. Todos esses procedimentos enriquecem a literatura e a escritora pode se valer de todos eles em sua poética. Não obstante, de quando em quando, me pego fazendo isso nos trabalhos acadêmicos: escrevendo como se o leitor conhecesse a fundo a minha pesquisa; saltando da teoria para o corpus ou de uma teoria para outra, como se o leitor conseguisse visualizar todo o meu mapa sináptico etc. Creio que ou eu superestimo o meu leitor ou eu superestimo a minha capacidade de sintetizar informações.
       Gostaria, sinceramente, que essas linhas cruzadas parassem de dar. Gostaria que o meu cérebro parasse de ver a escrita acadêmica como arte e passasse a vê-la como técnica. Gostaria, enfim, de aprender a difícil arte de conciliar a escritora e a acadêmica.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Um quase não tempo



A harmonia que impregna o mundo ao amanhecer é translúcida e palpável. Essa harmonia é tão sublime que é quase um não tempo. Este não tempo pinga como “Für Elise” ao piano. Contudo, pela janela do ônibus, ressoa das árvores sua pulsação. Seu contentamento é uma espécie de Allegro silencioso. Ao menos começa silencioso enquanto estamos no não tempo. A melodia, aguda e urgente, ainda dorme. Por isso a harmonia é tão tangível. Tanto, que parece que este mundo ainda não foi criado. Ou, talvez, mais provável é que os homens ainda dormem. Dormem e perdem este paraíso.
Este amanhecer tão harmonicamente sutil é um Noturno, de Chopin. Mas o mundo já foi criado e os homens precisam reviver seus automatismos miseráveis. É uma pena que a harmonia seja inaudível para alguns. Se ao menos as turbas tivessem a surdez sensível de Beethoven. Em vez disso, as criaturas, ao acordarem, esfacelarão a harmonia com suas dissonâncias e estridências.
Fecho os olhos. A harmonia ainda está aqui. É cedo e está chovendo. O não tempo pode se estender mais um pouco, antes que recomece a 5ª Sinfonia de Beethoven que é este mundo, especialmente esta ilustre província da qual sou filha.
Não obstante, eu própria reconheço que estou mais para Beethoven do que para Bach. Esta harmonia que meus ouvidos moucos tiveram a outorga divina de sorver não me pertence. É do Todo. É o Todo. Eu ainda sou muito geniosa para impregnar-me desta harmonia translúcida e palpável, como a manhã fez.
Desço do ônibus e logo me aborreço. Pronto. Se fui harmonia por brevíssimos minutos, já voltei a ser disritmia. A harmonia, porém, sobrevive em mim como lembrança. Lembrança de que, enquanto o caos dorme, é possível ouvir a harmonia de Deus.