sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Ser-estrela


            Ser-estrela. Ser estrela. Uma estrela de cinco pontas, é isso o que somos. De braços abertos, de pés levemente separados e a cabeça erguida a olhar o horizonte, somos uma estrela perfeita.
            Ser-estrela é muito mais do que uma posição geratriz. É uma atitude frente à Vida. De braços estendidos, abrimos totalmente o peito.  De peito aberto, o coração se expande e temos condições de dar e receber afeto. Com a caixa torácica livre de compressões, respiramos mais e melhor. Ainda com o peito aberto, dizemos ao Universo que estamos dispostos a receber. Sim, estamos dispostos a acolher o porvir, sejam as rosas, sejam os desafios. Os pés, ligeiramente separados, nos dão a sustentação necessária. A terra, nossa Grande-mãe, nos beija os pés descalços e nos nutre com a sua força milenar. Com os dedos bem enraizados no chão, estamos plenamente conscientes do aqui-agora e conseguimos, enfim, degustar o presente. Já a cabeça, erguida, nos conecta a um horizonte de infinitas possibilidades. Sentindo-nos capazes de transformar o nosso mundo, somos realmente capazes de fazê-lo. Afinal, nada está fora. Tudo está dentro.
            Ser-estrela, como a posição geratriz que é, gera mais vida dentro e fora de nós. Ser-estrela nos permite conectar com a nossa luz interior, que é própria e intransferível. E esta se reflete no olhar encantado e no sorriso amigável. A Vida é essencialmente amorosa e receptiva. Que possamos ser assim também. Isto é Ser-estrela.

domingo, 13 de novembro de 2016

A criatividade

            
              A criatividade é essencialmente feminina, pois ela é a capacidade de gestar ideias e dar-lhes à luz. O ser criativo, portanto, é extremamente fecundo. E toda esta fertilidade representa o aspecto feminino, que todos temos dentro de nós, independentemente de sermos homens ou mulheres. Este aspecto feminino de nossa psique, o Jung chama de anima. Contudo, para que as ideias gestadas sejam materializadas e possam ganhar o mundo, precisamos do aspecto masculino da psique: o animus. Por conseguinte, enquanto a anima busca a ideia em sua fonte primordial e a gesta, o animus mobiliza a energia necessária para que esta ideia ganhe corpo e se transforme em textos, telas e inventos de toda ordem. Assim sendo, os dois aspectos precisam estar em harmonia para que sua fusão ocorra. Caso contrário, a pessoa pode ter muitas ideias e ideias muito boas, mas não conseguir executar nenhuma delas, pois pensamento e ação não estão integrados.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O abraço da Biodanza

Fotografia: Flávio Menezes

            No abraço biocêntrico, é exatamente a vida quem está no centro. Não são braços frouxos, sem vitalidade, que nos abraçam. Mas sim braços acolhedores e carinhosos que nos envolvem.
            No abraço biocêntrico, o prazer também está presente. O prazer de sentir o outro; de sentir braços tão amorosos nos manter junto a si e nos aquecer nutritivamente. Sexualidade, então, não é só sexo. Sexualidade é prazer. Prazer de viver, de sentir, de abraçar.
            No abraço biocêntrico, somos criativos. Mais do que isso: somos autopoiéticos. Recriamos padrões antigos e reelaboramos sentimentos. Aprendemos a chegar e a partir com suavidade. Aprendemos que abraço não é força. É presença. A criatividade, portanto, está em cada momento, em cada movimento nosso.
            No abraço biocêntrico, o afeto impera. O vínculo afetivo nasce no encontro dos olhares, cresce no diálogo das mãos e desabrocha no enlaçar dos corações. Não estamos aqui para competir com ninguém, e sim para cuidar e nutrir o outro. Isso é afetividade.

            No abraço biocêntrico, transcendemos nossos limites, nossos medos. Somos um com quem abraçamos. Somos um com o Amor. Assim, transcendência nada mais é do que nos permitirmos esta fusão com o outro e com o Amor.

domingo, 31 de julho de 2016

Dias de mãe


            É ótimo ser filho. É muito, muito bom ser filho. Até o dia em que nossa mãe adoece.
            Ser mãe não é fácil. Ser “mãe” da mãe, muito menos. Não é fácil inverter os papéis e ficar nesse lugar de cuidadora. Ainda mais quando a sua mãe não se permite ser cuidada e, mesmo doente, continua orientando tudo o que precisa ser feito; não largando, nem por um segundo, este lugar de mãe.
            Talvez seja ligeiramente mais fácil ser mãe de um bebê, que não sabe nada sobre o mundo, do que ser “mãe” da mãe, ou seja, de alguém com todo um sistema de crenças e valores já sedimentado.
            A propósito, quando nós nascemos (a maioria de nós, pelo menos), nossa mãe já era adulta. E nós, inocentes em nossa fragilidade infante, crescemos sabendo – ou pensando que sabemos – que nossa mãe é capaz de cuidar de si. Em nossa visão infantil, a mãe é uma mulher impressionante, com poderes fantásticos. É incrível como ela cuida de si, da casa e de todo mundo. Mas, um dia, nossa mãe adoece. Neste momento, não sabemos ser filhos. Nem mães.
            Quando minha mãe teve chikungunya, foi a vez em que a vi mais fragilizada. Tamanha era a dor que sentia, que parecia uma criança assustada. Aquela cena me deu uma aflição tão grande! Eu não fazia ideia de como cuidar dela. Entretanto, por vários dias, durante a chamada fase aguda da doença, eu precisei ser a mãe da relação. E, por mais que eu me esforçasse, parecia não ter habilidade nenhuma para cuidar de quem quer que fosse, avalie ser “mãe” de minha mãe.
            Desde pequena, eu tinha a sensação de que mainha não precisava de ninguém para cuidar dela. Ela era forte e determinada e podia muito bem dar conta de si. Ao menos era isso o que eu pensava. E eu cresci um pouco assim também, porque a fragilidade humana nos assusta. Muito. Não queremos ser frágeis. Não queremos ser vistos como frágeis. E, talvez por isso, esses dias de mãe tenham mexido tanto comigo.
            Eu não sou mais a mesma de antes desta experiência. Entretanto, ainda mão me sinto capaz de cuidar do outro. Na verdade, ainda estou aprendendo a cuidar e a me permitir ser cuidada.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Autopoiesis

            Poiesis, segundo Aristóteles, é criação, mais precisamente a criação poética. A autopoiesis, saindo um pouco da literatura e mergulhando numa dimensão mais existencial, seria, por conseguinte, uma criação de si mesmo. Mais do que isso, a autopoiesis é uma recriação de si mesmo. Não se trata de tornar-se uma pessoa completamente diferente do que se é, mas, ao contrário, de ser exatamente o que se é. Recriar-se, portanto, é virar-se no avesso e descobrir que o avesso é o que realmente somos.
            À medida que crescemos, ouvimos de todos – pais, amigos, parentes, da mídia, etc. – o que somos ou o que deveríamos ser: “Você fala demais”; “Não seja tão curioso”; “Seja uma boa menina”; “Seja uma mulher difícil” e coisas que o valham. De tal sorte que somos tolhidos por todos os lados, desde o recôndito de nosso lar, passando pela escola, pela igreja e por todas as instituições sociais. De maneira igualmente ostensiva, somos moldados pela mídia em geral, a qual nos faz crer que sabe mais do que nós mesmos qual o nosso peso ideal, a profissão que mais combina conosco e até as palavras que devemos sussurrar para o nosso cônjuge durante o sexo. A consequência disto é que nossa identidade pode ficar seriamente comprometida, principalmente em virtude de tentarmos nos moldar a tantas exigências; e, nossa expressão, inibida, conservando nossas potencialidades genéticas em estado latente, como poemas guardados numa gaveta. Através da Biodança, porém, estas potencialidades podem ser resgatadas e/ou despertadas, e a expressão, desbloqueada. É neste momento que se dá a autopoiesis.
            Na Biodança, e mais ainda nas vivências de Biodança, sejam elas do grupo semanal ou da formação biocêntrica, identificamos nossos condicionamentos e rótulos e temos a oportunidade de descobrir um novo modo de ser e fazer e, consequentemente, de nos recriarmos. Neste processo, somos como o escultor que retira do mármore tudo o que não pertence à estátua, ou seja, a nós mesmos, à nossa essência.
            No início, é difícil separar o que somos do que as pessoas disseram que nós éramos e que nós acreditamos que éramos. Não raro, assimilamos com tanta veemência os rótulos, que eles ganham ares de verdade, impregnando nossos pensamentos e ações. Contudo, nas vivências de Biodança, sobretudo através do transe musical, deixamos cair nossas couraças e defesas – especialmente as egóicas – e entrevemos nossa luminosa essência. É a partir dessas espiadas rápidas e profundamente sentidas que distinguimos o que é nosso de fato e o que é julgamento de terceiros. E mesmo o que é nosso pode ser transformado, pois somos seres mudáveis. Logo, estamos em constante evolução; em constante autopoiesis.
            Em alguns casos, se o indivíduo possui tal potencialidade genética, a autopoiesis existencial e a poiesis aristotélica podem se complementar, influenciando-se mutuamente. Assim, além dos insights que afloram naturalmente depois das vivências – seja no dia seguinte ou meses depois – a autopoiesis também vem através de textos poéticos, ou seja, através da própria poesia. Tal é o que aconteceu e acontece comigo.
            Os insights emergem da vivência, como acontece a todos os biodançantes, mas é através da criação poética que tudo se organiza e consolida dentro de mim. Na vivência, sou sentimento; sou entrega e dissolução. Contudo, é através das palavras que a transformação se enraíza. Uma não sobrevive sem a outra. A transformação nasce na vivência e se consolida na poesia.
            A poesia me recria e me mostra quem verdadeiramente sou. É através da poesia que renuncio ao mármore que me impuseram e me torno a Vênus de Milo que sempre fui.