
Poiesis, segundo Aristóteles, é criação,
mais precisamente a criação poética. A autopoiesis, saindo um pouco da
literatura e mergulhando numa dimensão mais existencial, seria, por
conseguinte, uma criação de si mesmo. Mais do que isso, a autopoiesis é uma
recriação de si mesmo. Não se trata de tornar-se uma pessoa completamente
diferente do que se é, mas, ao contrário, de ser exatamente o que se é.
Recriar-se, portanto, é virar-se no avesso e descobrir que o avesso é o que
realmente somos.
À
medida que crescemos, ouvimos de todos – pais, amigos, parentes, da mídia, etc.
– o que somos ou o que deveríamos ser: “Você fala demais”; “Não seja tão
curioso”; “Seja uma boa menina”; “Seja uma mulher difícil” e coisas que o
valham. De tal sorte que somos tolhidos por todos os lados, desde o recôndito
de nosso lar, passando pela escola, pela igreja e por todas as instituições sociais.
De maneira igualmente ostensiva, somos moldados pela mídia em geral, a qual nos
faz crer que sabe mais do que nós mesmos qual o nosso peso ideal, a profissão
que mais combina conosco e até as palavras que devemos sussurrar para o nosso
cônjuge durante o sexo. A consequência disto é que nossa identidade pode ficar
seriamente comprometida, principalmente em virtude de tentarmos nos moldar a
tantas exigências; e, nossa expressão, inibida, conservando nossas
potencialidades genéticas em estado latente, como poemas guardados numa gaveta.
Através da Biodança, porém, estas potencialidades podem ser resgatadas e/ou
despertadas, e a expressão, desbloqueada. É neste momento que se dá a
autopoiesis.
Na
Biodança, e mais ainda nas vivências de Biodança, sejam elas do grupo semanal
ou da formação biocêntrica, identificamos nossos condicionamentos e rótulos e
temos a oportunidade de descobrir um novo modo de ser e fazer e,
consequentemente, de nos recriarmos. Neste processo, somos como o escultor que
retira do mármore tudo o que não pertence à estátua, ou seja, a nós mesmos, à
nossa essência.
No
início, é difícil separar o que somos do que as pessoas disseram que nós éramos
e que nós acreditamos que éramos. Não raro, assimilamos com tanta veemência os
rótulos, que eles ganham ares de verdade, impregnando nossos pensamentos e
ações. Contudo, nas vivências de Biodança, sobretudo através do transe musical,
deixamos cair nossas couraças e defesas – especialmente as egóicas – e
entrevemos nossa luminosa essência. É a partir dessas espiadas rápidas e
profundamente sentidas que distinguimos o que é nosso de fato e o que é
julgamento de terceiros. E mesmo o que é nosso pode ser transformado, pois
somos seres mudáveis. Logo, estamos em constante evolução; em constante
autopoiesis.
Em
alguns casos, se o indivíduo possui tal potencialidade genética, a autopoiesis
existencial e a poiesis aristotélica podem
se complementar, influenciando-se mutuamente. Assim, além dos insights que afloram naturalmente depois
das vivências – seja no dia seguinte ou meses depois – a autopoiesis também vem
através de textos poéticos, ou seja, através da própria poesia. Tal é o que
aconteceu e acontece comigo.
Os
insights emergem da vivência, como
acontece a todos os biodançantes, mas é através da criação poética que tudo se
organiza e consolida dentro de mim. Na vivência, sou sentimento; sou entrega e
dissolução. Contudo, é através das palavras que a transformação se enraíza. Uma
não sobrevive sem a outra. A transformação nasce na vivência e se consolida na
poesia.
A
poesia me recria e me mostra quem verdadeiramente sou. É através da poesia que
renuncio ao mármore que me impuseram e me torno a Vênus de Milo que sempre fui.
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