terça-feira, 19 de abril de 2016

Autopoiesis

            Poiesis, segundo Aristóteles, é criação, mais precisamente a criação poética. A autopoiesis, saindo um pouco da literatura e mergulhando numa dimensão mais existencial, seria, por conseguinte, uma criação de si mesmo. Mais do que isso, a autopoiesis é uma recriação de si mesmo. Não se trata de tornar-se uma pessoa completamente diferente do que se é, mas, ao contrário, de ser exatamente o que se é. Recriar-se, portanto, é virar-se no avesso e descobrir que o avesso é o que realmente somos.
            À medida que crescemos, ouvimos de todos – pais, amigos, parentes, da mídia, etc. – o que somos ou o que deveríamos ser: “Você fala demais”; “Não seja tão curioso”; “Seja uma boa menina”; “Seja uma mulher difícil” e coisas que o valham. De tal sorte que somos tolhidos por todos os lados, desde o recôndito de nosso lar, passando pela escola, pela igreja e por todas as instituições sociais. De maneira igualmente ostensiva, somos moldados pela mídia em geral, a qual nos faz crer que sabe mais do que nós mesmos qual o nosso peso ideal, a profissão que mais combina conosco e até as palavras que devemos sussurrar para o nosso cônjuge durante o sexo. A consequência disto é que nossa identidade pode ficar seriamente comprometida, principalmente em virtude de tentarmos nos moldar a tantas exigências; e, nossa expressão, inibida, conservando nossas potencialidades genéticas em estado latente, como poemas guardados numa gaveta. Através da Biodança, porém, estas potencialidades podem ser resgatadas e/ou despertadas, e a expressão, desbloqueada. É neste momento que se dá a autopoiesis.
            Na Biodança, e mais ainda nas vivências de Biodança, sejam elas do grupo semanal ou da formação biocêntrica, identificamos nossos condicionamentos e rótulos e temos a oportunidade de descobrir um novo modo de ser e fazer e, consequentemente, de nos recriarmos. Neste processo, somos como o escultor que retira do mármore tudo o que não pertence à estátua, ou seja, a nós mesmos, à nossa essência.
            No início, é difícil separar o que somos do que as pessoas disseram que nós éramos e que nós acreditamos que éramos. Não raro, assimilamos com tanta veemência os rótulos, que eles ganham ares de verdade, impregnando nossos pensamentos e ações. Contudo, nas vivências de Biodança, sobretudo através do transe musical, deixamos cair nossas couraças e defesas – especialmente as egóicas – e entrevemos nossa luminosa essência. É a partir dessas espiadas rápidas e profundamente sentidas que distinguimos o que é nosso de fato e o que é julgamento de terceiros. E mesmo o que é nosso pode ser transformado, pois somos seres mudáveis. Logo, estamos em constante evolução; em constante autopoiesis.
            Em alguns casos, se o indivíduo possui tal potencialidade genética, a autopoiesis existencial e a poiesis aristotélica podem se complementar, influenciando-se mutuamente. Assim, além dos insights que afloram naturalmente depois das vivências – seja no dia seguinte ou meses depois – a autopoiesis também vem através de textos poéticos, ou seja, através da própria poesia. Tal é o que aconteceu e acontece comigo.
            Os insights emergem da vivência, como acontece a todos os biodançantes, mas é através da criação poética que tudo se organiza e consolida dentro de mim. Na vivência, sou sentimento; sou entrega e dissolução. Contudo, é através das palavras que a transformação se enraíza. Uma não sobrevive sem a outra. A transformação nasce na vivência e se consolida na poesia.
            A poesia me recria e me mostra quem verdadeiramente sou. É através da poesia que renuncio ao mármore que me impuseram e me torno a Vênus de Milo que sempre fui.

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