sábado, 4 de julho de 2015

O corpo, este terceiro

Nunca soube o que fazer com meu corpo, essa é a grande verdade. Nunca soube o que fazer com todas essas emoções e sensações. Nunca soube, portanto, viver em harmonia com meu próprio corpo. Por isso, refugiei-me na mente. Lá, apesar de o caos vir me visitar de quando em quando, eu conseguia pôr ordem na casa. O corpo, ao contrário, sempre fora um ambiente muito inóspito para mim. Não importava o quanto minha mente bradasse, ele sempre se revelara muito aquém do meu controle. E isso me furtava completamente o equilíbrio: todas aquelas emoções e sensações incontroláveis, verdadeiros corcéis em fuga, eu não sabia o que fazer com elas e elas pareciam voltar-se contra mim, sempre. Eu, teimosa como uma boa capricorniana, tentava racionalizar, tentava, em vão, comprar o equilíbrio com palavras de ordem. Entretanto, sempre chegava a hora mais temida: a mente também sucumbia ao caos e eu não era mais nada, nem mente nem corpo, só um amontoado de dúvidas e apreensões. Logo, para a minha própria sobrevivência e sanidade mental, amorteci – o quanto pude – o corpo. A mente, então, ressoou como o lugar menos arriscado para se viver.
Agora, porém, que o corpo está renascendo qual fênix incandescente, estou neste turbilhão novamente. Anos e anos depois, eu ainda não sei o que fazer com as sensações e emoções que eclodem dentro de mim. A resistência da mente em me permitir apenas sentir ainda é grande. E o vício de racionalizar tudo ainda persiste. Apesar disso, percebo que a mente está desistindo mais fácil do controle. Nesse instante é que me sinto mais perdida, sem um ocaso que me guie. Quando a mente não está aqui para controlar e como eu ainda não me permito “apenas sentir”, tenho a nítida impressão de estar dissolvida em alguma dimensão paralela, pois ainda não tenho coragem de ficar no corpo sorvendo este turbilhão enquanto a mente ordena: “Faça alguma coisa!”, mas eu não sei o que fazer, pombas!
O corpo parece-me um terceiro, que entrou de gaiato numa relação, a qual vinha dando certo há mais de uma década. Eu gostaria, sinceramente, de acolhê-lo, embora tenha muito medo de sua vida e impetuosidade. Aprendi, desde muito cedo, a manter esse corcel sob rédea curta, podando-o de todas as formas possíveis. Agora ele quer voar, devorar os campos, e suas asas ferem a minha necessidade de que tudo esteja em ordem e sob controle. Contudo, não quero mais reprimi-lo, apesar de ainda não me sentir preparada para ser menos cortical.

Enquanto isso, a tempestade segue o seu (sem) rumo.

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