sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Uma vivência em meia quarta

            Eu cheguei atrasada. Eu, que chego antes do facilitador, cheguei atrasada. O grupo já caminhava em ativação alta e eu não tive coragem de entrar na metade da aula. Inconformada, permiti que algumas lágrimas escorressem, enquanto via a farra da turma através da janela. Uma pessoa, porém, fez questão de me abraçar: “Eu abraço você e você me abraça!”. Resoluta, ela me colocou onde eu queria estar desde o início. Todavia, senti-me uma intrusa, recebendo aqueles abraços que não me pertenciam. Eu não me sentia no direito de invadir a aula num momento tão íntimo como os abraços. Eu não havia convivido com aquelas pessoas; não sabia o ritmo de seus passos e muito menos o som do seu olhar. Meu peito doeu neste momento; o coração apertadinho e choroso. Eu queria receber aqueles afetos, mas eu me senti tão pouco merecedora deles, que meu coração ficou minúsculo e impenetrável. Minha alma, então, chorou sua secura. E, ao encontrar o abraço mais parental possível, ecoei dentro de mim: “Eu quero ser merecedora de amor. Eu quero!”. Querer, infelizmente, não é sentir. Querer é racionalizar. É tudo o que o ego, no seu jeito torto de cuidar, diz para tentar acalmar as águas revoltas do nosso coração. O sentimento, ao contrário, é a nossa verdade intrínseca. Seja o que for, aquilo é a verdade, para nós, naquele momento. É o que é. É vivência. E vivência não se discute. A mente, porém, é teimosa, e quer que lhe expliquem tudo: “Por que me sinto indigna do amor, se as pessoas o dão a mim de bom grado? Que membrana é essa que reveste o meu coração e o impede de absorver o amor que me dão?”. Entre tantas dúvidas, eis uma boa nova: antes era os muros de Tróia que guardavam meu coração, agora apenas uma membrana. Esta película, contudo, também há de cair. E será o próprio Amor quem a retirará.

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