sexta-feira, 19 de junho de 2015

Às pétalas renascidas

            Esta mandala é o negativo mais sincero e colorido de minha afetividade. Ela surgiu despetalada, apenas com as quatro pétalas maiores. Por serem maiores e mais fortes, foram as únicas sobreviventes de minha última incursão no amor. O centro, com linhas finas de contorno, também não estava assim vivo, assim quente, quando cheguei. Não. Eu cheguei despetalada e amortecida. Um completo azul oceânico bem escuro dominava minha alma. Um azul bem gelado, desesperançado, exatamente como estava o meu coração. Eu era esse frio cortante de morte.
            O rosa veio naturalmente, quieto, um tanto tímido. No fundo do azul tirânico, um sopro de ternura emergiu. O núcleo acendeu uma luz singela. Um rosa quente e discreto remoçou a Vida dentro de mim. A Afetividade renovou-se em pequenos gestos e pétalas miúdas e brilhantes nasceram no vazio, entre as pétalas maiores. Cada vez mais pétalas, lindas e rosáceas, estão a preencher-me. O Amor, este fogo luminoso e acolhedor, me aquece sem queimar. E a flor está cada vez mais cheia e rosa de Afeto.
            Cristais pontiagudos ainda sobrevivem ao centro, são minhas couraças mais obstinadas. O núcleo, porém, é flor. Eu sou flor, por mais que insista em construir muros intransponíveis. Mas não deixe o medo demovê-lo de conhecer a flor que eu sou, e que guardo com tanto zelo, a sete chaves.
            Eu sou flor. E tanto Amor adoça minhas pétalas. Veja! As aves já me circundam, amando-se também. Já não há qualquer sinal do azul oceânico cortante. Não. Sou mel e ternura. E o Amor, em breve, vencerá o medo que persiste.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Inteireza no enlace

            Em princípio, foram os braços. Um arrocho daqueles! Embora assustada, eu gostei. Eu estava realmente precisando daquele arrocho para voltar a mim. Tanto que, mesmo com medo, me permiti dissolver naquele abraço. Larguei mão de ser terra, e fui água por alguns minutos. Fui lágrima e suor. Fui sede. Sede de proteção. Eu, profundamente entregue, só me sustinha em pé, porque você me segurava.
            Não obstante sua força, eu era presença. Sim, apesar de dissolvida, eu estava presente. E esse aperto todo me fez lembrar que eu também já fui urso. Eu também queria, de alguma forma, trazer a pessoa para dentro de mim. Porém, mesmo que eu quisesse, não tinha braços para sugá-lo, pois já o fora primeiro.
            Ainda assim, eu me propus a apertá-lo, muito embora carecesse de braços para tal. Eu queria reviver meus tempos de sucuri. Contudo, descobri que não mais o poderia. Eu não tinha mais força, apenas ternura. Então, brotou em mim um abraço afetuoso e doce. Apertar? Não é mais necessário. Apenas trazer junto ao peito.
            Contrariando esta poética bruteza que ainda me sobra, eu simplesmente quero abraçá-lo com o corpo inteiro. Não são os braços que enlaçam tão-somente, embora estes estejam hipersensíveis, mas também as mãos, que querem pousar em seu rosto, acomodar-se a ele; é a minha face, que quer roçar-lhe felinamente o rosto; é a respiração, que quer aspirar o calor de sua pele; são todos os poros exalando prazer e ternura ao deliciar-se neste enlace.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Um dia inteiro


Um dia inteiro este bem demorou a chegar.
Um dia. Inteiro.
Eu, porém, ainda tinha toda a ternura para lhe dar.
Toda a pureza de meus olhos amedrontados.
Sim, eu estava com medo.
Mas você não sabia disso.
Como esse bem demorou a chegar!
Eu buscava um ancoradouro em seu olhar.
Seus olhos, contudo, não se detinham ante aos meus.
Foi duro. Este bem demorou muito a chegar.
Eu buscava aquele abraço de alma,
Mas nem o corpo estava presente.
Uma música, enfim, e tudo aquietou.
Nossos corações se reencontraram          
E o Afeto resguardou-nos em seus laços.
O bem chegou.
Depois de um dia inteiro.
Um dia, para sentir-me inteira novamente.