sábado, 14 de agosto de 2021

Eu sou toda mar

 

Desenho de autoria própria.

Eu sou toda mar. Quisera ser (a)mar. Quisera eu pensar menos em ti e amar-te somente. Mas eu penso tanto, tanto. Eu penso excessivamente. Lanço mil e uma conjecturas sobre o passado e o futuro. Teço e desteço anseios e memórias, diante deste mar azul turquesa.

Está um sábado lindo e, às seis da manhã, já estou na praia. O cheiro da maresia me invade enquanto o sol beija todos os meus poros. Que delícia! Aproveito a praia quase deserta e tiro a parte de cima do biquíni. Oh, que alívio! Como eu queria que tu me dissesses o que sentes por mim sem que eu precisasse perguntar. Queria ter o dom de entrar em teu coração à noite e descobrir o que sentes por mim. Se eu percebesse o terreno livre e fértil, eu me declararia para ti no dia seguinte. Porém, tudo que tenho são sonhos e suspiros. AH, que dia lindo!

A areia ainda não está muito quente e me deito diretamente sobre ela. O céu não tem uma nuvem sequer, mas o sol me ofusca e fecho os olhos. Oh, eu quero amar-te; quero me diluir em ti. Oh, por que não me procuras tu? Eu tenho medo, muito medo de pôr o pé dentro d’água. Tenho muito medo de me afogar. Oh, Janaína, me ajuda! Me ajuda a confiar no que estou sentindo. Me ajuda a ser água.

Eu quero ser água. Eu quero fluir para ti. Eu não quero chegar derrubando tudo. Eu quero chegar de mansinho, beijando teus pés e ir subindo devagarzinho, até transbordar em ti. Mas como é difícil ser água. Na verdade, como é difícil ser um rio manso. Eu sou, sempre fui, um mar revolto. Um mar em dia de ressaca.

Sinto meus mamilos intumescidos com o vento frio. Que vontade de revelar esta pérola de amor que guardo em meu peito. Oh, Janaína, liberta-me do medo de submergir nas águas profundas do meu coração! Liberta-me deste medo de amar! Amar-te sem medos ou reservas. Amar-te integralmente. Ser o próprio Amor, para que não seja possível outra coisa além de amar-te.

O sol esquenta e eu começo a suar. Abro os olhos lentamente e me sento. Observo o mar azul turquesa e corro para os seus braços. O mar cheio, intenso, como as minhas emoções. Mesmo assim, mergulho. A princesa de Aiocá me conduza. Tenho medo de te amar e deixar de ser eu. Mas quem sou eu? Quem sou eu de verdade? Quem sou eu quando não preciso agradar nem impressionar ninguém? Quem sou eu, quando apenas sou?

Entre o Paraíso e a Barreira do Inferno, eu me entrego a ti, Janaína. Eu entrego minhas preocupações ao mar. Entrego os meus medos e angústias a este firmamento azul. Eu me entrego a ti, meu amor. Eu entrego todas as minhas resistências. Eu entrego a ti, minha mãe, o meu medo de amar e me entregar. Eu me rendo ao mar. Eu sou água e entrego minhas questões insolúveis ao sol. Eu me entrego ao vento e, juntos, dançamos no amor, entre o Paraíso e a Barreira do Inferno.


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

A ferida sagrada que nos dá força

 

Desenho de autoria própria


Há uma ferida em meu peito e eu não sei o que fazer com ela. Sou uma espécie de Prometeu acorrentado ao Cáucaso de minhas memórias, onde os abutres vêm me visitar sempre que me penso curada desta chaga. Eu queria que algum Hércules me salvasse e a ferida sarasse por completo. Porém, eu mesma terei de fazer o trabalho hercúleo de curar-me.

A ferida em meu peito não sangra mais, mas lateja de quando em quando. E, naquele inexorcizável três de agosto, calhou de doer novamente. Depois de tanto tempo, esta data ainda é o maior abutre de todos. O dia em que nós terminamos, ou melhor, que eu terminei com aquele ser que não quero dizer o nome (e nem xingá-lo). Fato é que o fogo de minha paixão juvenil converteu-se nesta chaga que hoje ostento.


Tenho trinta e poucos anos, mas, de tão amarga, aparento o dobro. Até quando, meu Deus? Até quando vou me culpar por essa escolha infeliz? Já são nove anos. Eu já deveria ter superado isso. Eu já deveria ter virado essa página e amado outro alguém. Não sei mais o que fazer. Pai, cura essa chaga de amor em meu peito. Cura essa ferida que me impede de amar novamente.


Eu queria curar essa ferida de uma vez por todas e me livrar dela. Na verdade, queria que ela nunca tivesse existido. Assim, eu não precisaria me preocupar com ela ― e, muito menos, senti-la latejar de quando em quando. Todavia, uma chaga de amor não é uma perna quebrada, que você toma anti-inflamatórios, passa um tempo com a perna engessada e, semanas depois, está novinho em folha, saltitando por aí. Uma chaga de amor é para sempre. Sempre vamos levar essa cicatriz no peito, mesmo depois da ferida desinflamar. E, por mais trágico que isso possa soar, não há nenhum deus, semideus ou herói que possa nos libertar e fazer a ferida magicamente desaparecer.


Há, no entanto, uma boa notícia: “depois de um tempo, ela vira uma ferida sagrada, que nos dá força”, como disse um amigo meu, certa feita. E, mesmo que essa ferida nunca se feche por completo e que continue latejando esporadicamente para o resto de nossas vidas, é possível amar infinitas vezes. Sim, é possível. Eu só preciso aprender a amar apesar dela, ao invés de me esconder nesta torre, como se fora um monstro disforme e purulento. Ademais, eu não sou a única a ostentar uma chaga de amor em meu peito, nesta terra de corações esburacados.