João Pessoa, 05 de dezembro de 2018
Quando eu digo que sou escritora, sou eu que estou dizendo. Eu me reconheço escritora. Eu me sinto escritora. Eu não sou poeta. De vez em nunca, atrevo-me a versificar, mas não me sinto poeta; não me reconheço entre os poetas. Até busco, extática e incansavelmente, uma prosa poética entre os meus dedos. Todavia, é só isso que sou: uma prosadora. Porém, eu dizer que sou é uma coisa. Eu posso, inclusive, nem ter esse virtuosismo todo em meu ofício de escrevinhadora. Contudo, posso, narcisisticamente, sentir-me boa no que faço. É a minha visão; o meu sentir. Agora, quando um outro diz, dependendo de quem seja esse outro, pode elevar-nos à quinta potência ou nos fazer sentir um escritor de quinta.
Ontem, uma pessoa que admiro muito e que é um leitor qualificadíssimo chamou-me de prosadora durante a aula. Por um segundo, abismei-me: “Ele lê o que eu escrevo?”. Mesmo incrédula, senti-me honrada: “Ele lê o que escrevo!”. Como quem se reencontra no caminho certo depois de inúmeras bifurcações da alma, eu fiquei extasiada na hora e me emociono ao recordar tal fato, pois, para mim, o bem mais precioso que temos é o tempo. E saber que alguém, quem quer que seja ele, dedica seu tempo e seus neurônios à leitura de minhas confusões e confissões deleita profundamente meu coraçãozinho; ainda mais quando se trata de um grande mestre e um grande leitor dos clássicos e de outros tantos cânones.
O que esse mestre talvez não saiba, mas aproveito a oportunidade para dizer-lhe, é que ele muito contribuiu para a construção desta prosadora aqui. Um dia, você disse em sala que “a poesia é para ser ouvida” e súbito reparei que eu não ouvia o que eu mesma escrevia. Eu escrevia e ponto. Mesmo na revisão, lia apenas com os olhos. Contudo, depois daquela aula, passei a ouvir o que escrevo e, ouvindo-me, pude perceber minha disritmia e até atenuá-la em alguns casos; pude identificar as ranhuras e ranços do texto e dissolvê-los ou intensificá-los, a depender do efeito pretendido. Então, depois desta autopoiesis[1] toda, ouvi-lo me chamar de prosadora foi, indubitavelmente, um dos melhores deleites.
Com admiração e estima,
Sara Carvalho
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[1] Os biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela trazem o termo “autopoiesis” como a capacidade que o nosso organismo tem de recriar-se constantemente, visando sobretudo a manutenção da vida. Contudo, aproveitando-me do meu conhecimento sobre Aristóteles, estendo o significado de “autopoiesis” para “capacidade de recriar minha própria poética”.

