sábado, 8 de dezembro de 2018

Prosadora a prosear




João Pessoa, 05 de dezembro de 2018

Quando eu digo que sou escritora, sou eu que estou dizendo. Eu me reconheço escritora. Eu me sinto escritora. Eu não sou poeta. De vez em nunca, atrevo-me a versificar, mas não me sinto poeta; não me reconheço entre os poetas. Até busco, extática e incansavelmente, uma prosa poética entre os meus dedos. Todavia, é só isso que sou: uma prosadora. Porém, eu dizer que sou é uma coisa. Eu posso, inclusive, nem ter esse virtuosismo todo em meu ofício de escrevinhadora. Contudo, posso, narcisisticamente, sentir-me boa no que faço. É a minha visão; o meu sentir. Agora, quando um outro diz, dependendo de quem seja esse outro, pode elevar-nos à quinta potência ou nos fazer sentir um escritor de quinta.

Ontem, uma pessoa que admiro muito e que é um leitor qualificadíssimo chamou-me de prosadora durante a aula. Por um segundo, abismei-me: “Ele lê o que eu escrevo?”. Mesmo incrédula, senti-me honrada: “Ele lê o que escrevo!”. Como quem se reencontra no caminho certo depois de inúmeras bifurcações da alma, eu fiquei extasiada na hora e me emociono ao recordar tal fato, pois, para mim, o bem mais precioso que temos é o tempo. E saber que alguém, quem quer que seja ele, dedica seu tempo e seus neurônios à leitura de minhas confusões e confissões deleita profundamente meu coraçãozinho; ainda mais quando se trata de um grande mestre e um grande leitor dos clássicos e de outros tantos cânones.

O que esse mestre talvez não saiba, mas aproveito a oportunidade para dizer-lhe, é que ele muito contribuiu para a construção desta prosadora aqui. Um dia, você disse em sala que “a poesia é para ser ouvida” e súbito reparei que eu não ouvia o que eu mesma escrevia. Eu escrevia e ponto. Mesmo na revisão, lia apenas com os olhos. Contudo, depois daquela aula, passei a ouvir o que escrevo e, ouvindo-me, pude perceber minha disritmia e até atenuá-la em alguns casos; pude identificar as ranhuras e ranços do texto e dissolvê-los ou intensificá-los, a depender do efeito pretendido. Então, depois desta autopoiesis[1] toda, ouvi-lo me chamar de prosadora foi, indubitavelmente, um dos melhores deleites.

Com admiração e estima,
Sara Carvalho






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[1] Os biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela trazem o termo “autopoiesis” como a capacidade que o nosso organismo tem de recriar-se constantemente, visando sobretudo a manutenção da vida. Contudo, aproveitando-me do meu conhecimento sobre Aristóteles, estendo o significado de “autopoiesis” para “capacidade de recriar minha própria poética”.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Abraçando o Minotauro



Cansada de esperar, Ariadne adentrou o Labirinto. Seus olhos tremiam de medo e euforia. Queria submergir no mais profundo dos olhos do Minotauro e ver tudo o que tivesse para ser visto a respeito de si mesma. Porém, titubeou um instante: “Mas… e se o Labirinto me engolir?”. Ele a engolirá, não duvide. Todavia, use o fio para regurgitar-se em segurança. Mais que depressa, ela amarrou uma de suas pontas à entrada e começou a tecer-se.

Confiando no fio, Ariadne caminhou serena e convicta. Seus olhos, contudo, não chamavam a morte. Não. Seus olhos ansiavam pelo poder e força do Minotauro. E, a cada passo que dava, mais do fio ficava para trás. Quanto mais avançava, menos se lembrava de Teseu; menos queria sua presença ali. Para quê? Para matar seu segredo? Não! Ariadne precisava descobri-lo ontem!

Numa esquina desatenta, Ariadne esbarrou na criatura; fitou-a e gaguejou o próprio nome: A-ri-ad-ne. O Minotauro ensurdeceu. A voz de Ariadne bruxuleava. O que fazer? A jovem, então, gritou. E gritou seu nome cada vez mais alto até o Minotauro se convencer da força que Ariadne tinha.

- O que você quer? Quer me aniquilar, como os outros? - antecipou-se o Minotauro.

Ariadne estacou. Sabia que o “não” ressoava dentro de si, mas não conseguia, não conseguia. Mal conseguira dizer o seu nome sem gaguejar!

- E então? O que quer de mim? - impacientou-se o Minotauro.

Ariadne, então, fincou os olhos na criatura e, por um longuíssimo segundo, temeu titubear. Pior: sentiu que diria “não” sorrindo, como sempre fizera. No entanto, contrariando suas próprias expectativas e receios, Ariadne proferiu com toda firmeza e determinação de que dispunha:

- Eu não vim matar você! Eu não quero matar você! Eu não vou matar você! Eu quero que você seja parte de mim! - O Minotauro olhou-a de volta, ainda não totalmente convencido de sua assertiva.

- Caminhe - ordenou-lhe. - Convença-me de que pode expressar a mim.

Ariadne dividiu-se. Como poderia, em seu passo miúdo, expressar uma criatura que tinha o dobro do seu tamanho e o triplo da sua força? A jovem, então, recolheu-se em si; respirou. Reunindo toda a sua força e coragem, Ariadne cerrou os punhos e se pôs a caminhar no centro do Labirinto. O Minotauro, cético, fixava as passadas cada vez mais largas e convincentes de Ariadne. Era tanta energia, tanta energia, que a jovem ameaçou chorar, mas foi apenas uma ameaça. Quando suspendeu o passo, o Minotauro a provocou:

- E se Teseu chegasse e me matasse?

A jovem começou a inflar e ruborizar, até que gritou:

- NÃO! NÃO ADMITO! Não permito que ele mate o que eu tenho de mais precioso! NÃO, NÃO e NÃO!

- E se eu me autoaniquilar? - desafiou-a mais uma vez.

- Eu não permito - asseverou Ariadne, com fogo nos olhos.

- Você crê me impedir? - Ariadne assentiu sem esmorecer. - Então me mostre o quanto você está disposta a defender minha existência.

O fogo nos olhos da jovem ascendeu cada vez mais e tomou-lhe todo o corpo. Seu olhar era incisivo o suficiente para matar um. Suas mãos transfiguraram-se em garras afiadas e ágeis. Seu rugido trovejava de tal forma, que todo o seu corpo vibrava, ressoando-o.

- Muito bem. Estou convencido de que você me defenderá - revelou o Minotauro. - Agora fique aqui e só saia quando eu disser que pode. - Ariadne, belicosa, fulminou-o com o olhar.

- Não fico. Não preciso ficar, se eu não quiser - enfrentou-o.

- Não vai ficar? Tem certeza? Veja como essa quina é agradável! - insistiu o Minotauro.

- Eu não quero - persistiu a jovem.

- Pois bem. Eu vou com você - assegurou ele. - Vou, porque agora sei que, além de não vai me matar, você irá me nutrir.

Ariadne assentiu com um discreto gesto de cabeça. Em seguida, a vimos sair do Labirinto, una com o Minotauro.

Eu sou Ariadne e essa é a história de como eu abracei o meu Minotauro.