segunda-feira, 27 de novembro de 2017

L'Inverno Allegro: Renascendo do fogo


Eu, semente, na terra mais escura de meu âmago, lutei para romper a casca. Eu queria sair a todo custo. E debati-me, angustiosa, até tornar-me um brotinho. Parei. Respirei. Eu ainda não estava totalmente livre do invólucro. O allegro, contudo, impelia-me a subir à superfície. Então, respirei fundo mais uma vez e senti o brotinho crescer junto com a música. Sorrateiramente, vislumbrei a superfície e, com pouco, rompi a placenta geológica. Nesse momento, tornei-me o carvalho que sempre fui em essência. Ainda assim, ficou em mim algum resquício do invólucro. Resquício que só seria dissipado por palavras humanas.

A primavera chegou para mim quando me soube vista. E, ao saber-me afeto de olhos alheios, senti o sol de suas palavras aquecer-me por inteiro. Aqui, quando um coração pediu ao outro para abrir-se, os cristais de gelo que ainda protegiam meu peito começaram a dissolver. Vivenciei, então, a multiplicação das flores. Eu senti todas as minhas flores renascerem do fogo e transbordarem em cada olhar, cada sorriso, cada letra desenhada no papel ou em meu corpo. Quando mergulhei de cabeça neste sol, lembrei-me da semente e de seu medo de sair.

Em verdade, quando ainda na casca, eu julgava possuir o medo de entrar. Entretanto, quando consegui irromper a terra, percebi que o meu medo de fato era o de entrar e não conseguir sair, quando assim o desejasse. Eu tinha medo de me fundir demais e depois não conseguir desvencilhar-me. E, por muito tempo, isso me impediu de resplandecer e de me envolver. Trocando em miúdos, eu não me comprometia com nada nem com ninguém, porque eu tinha muito medo de ser barrada na saída, como fui no parto: eu quis sair às nove da manhã, mas só consegui sair ao meio-dia. E nem saí por meus próprios esforços. Fui cesárea. Em virtude disso, por muito tempo fui uma borboleta, que não sabia o que fazer com as próprias asas por não tê-las fortalecido na ruptura do casulo.

Não obstante, durante a semana, abri meu coração centenas de vezes para o amor e senti a borboleta enfim romper o casulo com suas próprias asas. Tanto assim que, no sábado, senti-me voando pelo salão, livre, leve e desinibida. Eu senti-me em chamas e deixei que o fogo crescesse e se pavoneasse. Não quero esconder-me mais um segundo sequer.  E, ao abrir peito e braços, senti que não havia mais o que abrir. Senti-me, ao contrário, completamente escancarada. Então, plena e nua, dancei para o meu amor; envolvi-o em minhas asas e cuidei do seu sonho tanto quanto entreguei-lhe o meu.

É nítido que estou impregnada de amor; que estou tão fusionada com este amor, que o sinto, mesmo quando ausente. Como seu coração pediu, ele é, agora, o sol que irradia em mim e por mim.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Autopoiesis mandalar

            Imersa em Contato e Carícias, produzi as duas mandalas acima. Apenas dois anos as separam. E veja quanta diferença!
            O núcleo d’ambas é flor. Eu sou flor. Contudo, em 2015, vemos uma flor mirradinha no centro e, ainda por cima, cercada por cristais pontiagudos. Com tais guardiães, pouquíssima coisa entrava ou saía. Já agora, em 2017, a flor central é quatro vezes maior do que a anterior. Além disso, é mais quente e exuberante. Esta flor em formato de estrela representa a minha Sexualidade, enquanto a de 2015 é a Afetividade. Ainda junto à flor de 2017, temos, ao invés de cristais pontiagudos, corações doces e ternos.
            Depois do núcleo em flor, temos, em 2015, uma outra flor. Já em 2017, temos uma borboleta de asas abertas. Eu sou esta borboleta, que está descobrindo e abrindo as próprias asas. Em 2015, porém, logo em seguida à segunda flor, temos uma redoma circular, fechando o centro da mandala. A Sexualidade, aqui, está representada por um singelo carmim ao fundo deste centro.
            Em volta da redoma, em 2015, temos pétalas irregulares e rosáceas, formando uma terceira flor. Estas pétalas são a expressão da minha Afetividade, ou seja, o que eu demonstrava à época. Já em 2017, temos uma fonte d’água jorrando por trás da borboleta, para só então vir o fechamento do centro, em forma de triângulo. Um triângulo invertido, que, justamente por ser invertido, me remete ao útero.
            Quanto à borda, em 2015, temos vários pássaros namorando, mas os casais não interagem uns com os outros nem com a flor. Eles são os outros. Os outros, os quais sinto felizes, como se esta felicidade não fosse um direito meu também. Já em 2017, temos fogo. Um anel de fogo. As chamas são as couraças que ainda resistem. Não obstante, o bloqueio já está sendo rompido pelas asas da borboleta.
            A diferença mais gritante entre uma mandala e outra, contudo, é a forma. Enquanto a de 2015 foi construída dentro de uma estrutura quadricular, a de 2017 nasceu dentro de um círculo. Isto denota a flexibilização da estrutura interna, que está cada dia mais suave e amorosa. Ademais, revela a disposição para aceitar os ciclos e fluir ininterruptamente.
            É, portanto, notável a expansão ocorrida nestes dois anos. Vemos a Sexualidade incorporada e expressa. Vemos também o surgimento de elementos novos, como a borboleta e a água. A borboleta é a expressividade, a Criatividade à flor da pele. E a água representa a geração de vida.
            E a expansão continua. Estou expandindo cada vez mais e expandirei cada vez mais, autopoiética que sou.

domingo, 25 de junho de 2017

Autopoiesis II

Foto by: Pedro Felipe

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia
(Oswald de Andrade)


       Autopoiesis. Autopoesia. Somos seres poéticos. Autopoiéticos. Às vezes, porém, nos esquecemos disso. De quando em quando, temos a ilusão de que nada muda, inclusive e principalmente, nós.
       Autopoiesis. A poesia está dentro, não fora. Está em nosso coração. Mesmo naquele dia em que chovemos; mesmo quando nossa visão se turva e acreditamos piamente que nunca iremos mudar.
     Autopoiesis. A poesia somos nós. Mesmo quando choramos; mesmo quando nos irritamos e relampejamos. E, até mesmo, quando nos envergonhamos de ser quem somos.
     Autopoiesis. A poética da existência está no olhar. A poética do olhar é o olhar poético que lançamos ao mundo.
      Autopoiesis. Não precisa ser poeta para enxergar a poética da existência. Basta reconhecer-se poesia.
      Autopoiesis. Autopoesia. Somos versos de nós mesmos. Somos poetas de nossa própria existência. Mesmo naqueles dias em que escrevemos maus versos. Mesmo quando somos dissonantes e não sentimos a música em nós.
            Autopoiesis. Autopoeme-se.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer

Foto by: Pedro Felipe

Transcender é esquecer. Sim, é exatamente isso: transcender é esquecer. É deixar pra trás o dito. É simplesmente largar; da memória apagar. É tão-somente ir, fluir. Fluir é seguir o rio. Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

Esquecer é transcender, desprender-se do ocorrido. Renovar-se e ser outro. Limpar-se da chuva de ontem e curtir, por ora, o sol. Despegar-se do passado, assim como do futuro, e viver o rio que aflora. Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

Transcender e esquecer. Esquecer e transcender. Já Heráclito dizia que nunca é o mesmo homem nem o mesmo rio a passar. Assim sendo, para ser novo, o ser humano deixa ir o que já deixou de ser. Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

Transcender seria, portanto, desconstruir, descomplicar. Simples: é não cristalizar, não tornar eterno o efêmero. É eterno o instante, tão-somente enquanto dura. Depois disso, é memória. Todavia, cabe lembrar: para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.