Vamos
tomando pelas mãos e vamos formando uma roda de embalo. Olho cada um nos olhos
e me permito ser embalada pela música. Na asa do vento, sinto largar o chão. E “assubo”
nos aro, para brincar no vento leste. Meus pés desapegam-se do chão e
distancio-me cada vez mais do solo. As mãos, porém, continuam pegadas à
roda. Isto, contudo, não impede o meu
voo. E vou subindo, cada vez mais alto e leve, nadando em pleno ar. O ar é
fluido como o mar, e não me oferece qualquer resistência. Vejo as pessoas na
roda a embalar. Elas nunca me viram tão leve e iluminada. Estão estupefatas. Eu
também nunca me sentira tão leve e luminosa. É um êxtase indescritível! Neste momento,
dou uma cambalhota, traço uma pirueta, minhas pernas se esticam quase a bater
no teto. Sinto-me nua. Minha alma está completamente despida. Eu sou esta
leveza e espontaneidade; esta luz e este rodopiar infante. Aqui, parece-me que
a música acaba, não tenho certeza. Giro mais uma vez no ar e regresso ao chão,
conservando esta leveza d’antes. E vou
olhando devagarzinho para cada pessoa na roda, degustando mais um pouco este êxtase.
Estupefata, agora sim, de ter uma identidade tão luminosa e expansiva. Desejando,
por minha vez, trazê-la para a curva da vida.
