Nunca soube o
que fazer com meu corpo, essa é a grande verdade. Nunca soube o que fazer com
todas essas emoções e sensações. Nunca soube, portanto, viver em harmonia com
meu próprio corpo. Por isso, refugiei-me na mente. Lá, apesar de o caos vir me
visitar de quando em quando, eu conseguia pôr ordem na casa. O corpo, ao
contrário, sempre fora um ambiente muito inóspito para mim. Não importava o
quanto minha mente bradasse, ele sempre se revelara muito aquém do meu
controle. E isso me furtava completamente o equilíbrio: todas aquelas emoções e
sensações incontroláveis, verdadeiros corcéis em fuga, eu não sabia o que fazer
com elas e elas pareciam voltar-se contra mim, sempre. Eu, teimosa como uma boa
capricorniana, tentava racionalizar, tentava, em vão, comprar o equilíbrio com
palavras de ordem. Entretanto, sempre chegava a hora mais temida: a mente
também sucumbia ao caos e eu não era mais nada, nem mente nem corpo, só um
amontoado de dúvidas e apreensões. Logo, para a minha própria sobrevivência e
sanidade mental, amorteci – o quanto pude – o corpo. A mente, então, ressoou
como o lugar menos arriscado para se viver.
Agora, porém,
que o corpo está renascendo qual fênix incandescente, estou neste turbilhão novamente.
Anos e anos depois, eu ainda não sei o que fazer com as sensações e emoções que
eclodem dentro de mim. A resistência da mente em me permitir apenas sentir
ainda é grande. E o vício de racionalizar tudo ainda persiste. Apesar disso,
percebo que a mente está desistindo mais fácil do controle. Nesse instante é
que me sinto mais perdida, sem um ocaso que me guie. Quando a mente não está
aqui para controlar e como eu ainda não me permito “apenas sentir”, tenho a
nítida impressão de estar dissolvida em alguma dimensão paralela, pois ainda não
tenho coragem de ficar no corpo sorvendo este turbilhão enquanto a mente ordena:
“Faça alguma coisa!”, mas eu não sei o que fazer, pombas!
O corpo
parece-me um terceiro, que entrou de gaiato numa relação, a qual vinha dando
certo há mais de uma década. Eu gostaria, sinceramente, de acolhê-lo, embora
tenha muito medo de sua vida e impetuosidade. Aprendi, desde muito cedo, a
manter esse corcel sob rédea curta, podando-o de todas as formas possíveis. Agora
ele quer voar, devorar os campos, e suas asas ferem a minha necessidade de que
tudo esteja em ordem e sob controle. Contudo, não quero mais reprimi-lo, apesar
de ainda não me sentir preparada para ser menos cortical.
Enquanto isso,
a tempestade segue o seu (sem) rumo.
