quinta-feira, 14 de março de 2019

Linha cruzada

(Foto: Thinkstock)

       Em um de seus livros, Evanildo Bechara afirma que precisamos ser poliglotas de nossa própria língua, ou seja, que conheçamos tão bem a língua portuguesa, que sejamos capazes de moldá-la a qualquer situação de uso. Entretanto, quando estamos aprendendo uma segunda língua, às vezes, acontece de dar linha cruzada no cérebro.
       Os mais novos talvez desconheçam a expressão “linha cruzada”, mas vou explicar o fenômeno. Ocorre a linha cruzada quando duas chamadas telefônicas se misturam. Hoje, com aparelhos celulares mais aperfeiçoados e tecnologias mais precisas, a linha cruzada tornou-se rarefeita. Já a linha cruzada cerebral, sináptica, parece-me cada vez mais amiudada. Começando por mim.
       Este ano, 2019, eu estou completando vinte anos de escrita literária e sete, de escrita acadêmica. Ainda hoje, dá linha cruzada entre as duas. Quantas vezes não me flagrei escrevendo como escritora os meus trabalhos acadêmicos? Quantas vezes meu orientador não me disse, desde o primeiro período do curso, que eu preciso separar a escritora da acadêmica? Mesmo assim, ainda dá linha cruzada entre as duas.
       Eu escrevo como se o leitor já soubesse o que vou dizer e eu não precisasse dizer tudo. Às vezes, porém, escrevo omitindo informações, para poder redirecionar a história depois. Também acontece, aqui e ali, de eu cruzar campos semânticos, tempos, lugares e eventos, para, deliberadamente, criar ambiguidades e confundir o leitor. Todos esses procedimentos enriquecem a literatura e a escritora pode se valer de todos eles em sua poética. Não obstante, de quando em quando, me pego fazendo isso nos trabalhos acadêmicos: escrevendo como se o leitor conhecesse a fundo a minha pesquisa; saltando da teoria para o corpus ou de uma teoria para outra, como se o leitor conseguisse visualizar todo o meu mapa sináptico etc. Creio que ou eu superestimo o meu leitor ou eu superestimo a minha capacidade de sintetizar informações.
       Gostaria, sinceramente, que essas linhas cruzadas parassem de dar. Gostaria que o meu cérebro parasse de ver a escrita acadêmica como arte e passasse a vê-la como técnica. Gostaria, enfim, de aprender a difícil arte de conciliar a escritora e a acadêmica.