Eu, semente, na terra mais escura
de meu âmago, lutei para romper a casca. Eu queria sair a todo custo. E
debati-me, angustiosa, até tornar-me um brotinho. Parei. Respirei. Eu ainda não
estava totalmente livre do invólucro. O allegro, contudo, impelia-me a subir à
superfície. Então, respirei fundo mais uma vez e senti o brotinho crescer junto
com a música. Sorrateiramente, vislumbrei a superfície e, com pouco, rompi a
placenta geológica. Nesse momento, tornei-me o carvalho que sempre fui em
essência. Ainda assim, ficou em mim algum resquício do invólucro. Resquício que
só seria dissipado por palavras humanas.
A primavera chegou para mim quando me soube vista. E, ao saber-me afeto de olhos
alheios, senti o sol de suas palavras aquecer-me por inteiro. Aqui, quando um
coração pediu ao outro para abrir-se, os cristais de gelo que ainda protegiam
meu peito começaram a dissolver. Vivenciei, então, a multiplicação das flores.
Eu senti todas as minhas flores renascerem do fogo e transbordarem em cada
olhar, cada sorriso, cada letra desenhada no papel ou em meu corpo. Quando
mergulhei de cabeça neste sol, lembrei-me da semente e de seu medo de sair.
Em
verdade, quando ainda na casca, eu julgava possuir o medo de entrar.
Entretanto, quando consegui irromper a terra, percebi que o meu medo de fato
era o de entrar e não conseguir sair, quando assim o desejasse. Eu tinha medo
de me fundir demais e depois não conseguir desvencilhar-me. E, por muito tempo,
isso me impediu de resplandecer e de me envolver. Trocando em miúdos, eu não me
comprometia com nada nem com ninguém, porque eu tinha muito medo de ser barrada
na saída, como fui no parto: eu quis sair às nove da manhã, mas só consegui
sair ao meio-dia. E nem saí por meus próprios esforços. Fui cesárea. Em virtude
disso, por muito tempo fui uma borboleta, que não sabia o que fazer com as
próprias asas por não tê-las fortalecido na ruptura do casulo.
Não
obstante, durante a semana, abri meu coração centenas de vezes para o amor e
senti a borboleta enfim romper o casulo com suas próprias asas. Tanto assim
que, no sábado, senti-me voando pelo salão, livre, leve e desinibida. Eu
senti-me em chamas e deixei que o fogo crescesse e se pavoneasse. Não quero
esconder-me mais um segundo sequer. E,
ao abrir peito e braços, senti que não havia mais o que abrir. Senti-me, ao
contrário, completamente escancarada. Então, plena e nua, dancei para o meu
amor; envolvi-o em minhas asas e cuidei do seu sonho tanto quanto entreguei-lhe
o meu.
É
nítido que estou impregnada de amor; que estou tão fusionada com este amor, que
o sinto, mesmo quando ausente. Como seu coração pediu, ele é, agora, o sol que
irradia em mim e por mim.
