sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer

Foto by: Pedro Felipe

Transcender é esquecer. Sim, é exatamente isso: transcender é esquecer. É deixar pra trás o dito. É simplesmente largar; da memória apagar. É tão-somente ir, fluir. Fluir é seguir o rio. Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

Esquecer é transcender, desprender-se do ocorrido. Renovar-se e ser outro. Limpar-se da chuva de ontem e curtir, por ora, o sol. Despegar-se do passado, assim como do futuro, e viver o rio que aflora. Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

Transcender e esquecer. Esquecer e transcender. Já Heráclito dizia que nunca é o mesmo homem nem o mesmo rio a passar. Assim sendo, para ser novo, o ser humano deixa ir o que já deixou de ser. Para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.

Transcender seria, portanto, desconstruir, descomplicar. Simples: é não cristalizar, não tornar eterno o efêmero. É eterno o instante, tão-somente enquanto dura. Depois disso, é memória. Todavia, cabe lembrar: para ser rio é preciso, antes de tudo, esquecer.