domingo, 31 de julho de 2016

Dias de mãe


            É ótimo ser filho. É muito, muito bom ser filho. Até o dia em que nossa mãe adoece.
            Ser mãe não é fácil. Ser “mãe” da mãe, muito menos. Não é fácil inverter os papéis e ficar nesse lugar de cuidadora. Ainda mais quando a sua mãe não se permite ser cuidada e, mesmo doente, continua orientando tudo o que precisa ser feito; não largando, nem por um segundo, este lugar de mãe.
            Talvez seja ligeiramente mais fácil ser mãe de um bebê, que não sabe nada sobre o mundo, do que ser “mãe” da mãe, ou seja, de alguém com todo um sistema de crenças e valores já sedimentado.
            A propósito, quando nós nascemos (a maioria de nós, pelo menos), nossa mãe já era adulta. E nós, inocentes em nossa fragilidade infante, crescemos sabendo – ou pensando que sabemos – que nossa mãe é capaz de cuidar de si. Em nossa visão infantil, a mãe é uma mulher impressionante, com poderes fantásticos. É incrível como ela cuida de si, da casa e de todo mundo. Mas, um dia, nossa mãe adoece. Neste momento, não sabemos ser filhos. Nem mães.
            Quando minha mãe teve chikungunya, foi a vez em que a vi mais fragilizada. Tamanha era a dor que sentia, que parecia uma criança assustada. Aquela cena me deu uma aflição tão grande! Eu não fazia ideia de como cuidar dela. Entretanto, por vários dias, durante a chamada fase aguda da doença, eu precisei ser a mãe da relação. E, por mais que eu me esforçasse, parecia não ter habilidade nenhuma para cuidar de quem quer que fosse, avalie ser “mãe” de minha mãe.
            Desde pequena, eu tinha a sensação de que mainha não precisava de ninguém para cuidar dela. Ela era forte e determinada e podia muito bem dar conta de si. Ao menos era isso o que eu pensava. E eu cresci um pouco assim também, porque a fragilidade humana nos assusta. Muito. Não queremos ser frágeis. Não queremos ser vistos como frágeis. E, talvez por isso, esses dias de mãe tenham mexido tanto comigo.
            Eu não sou mais a mesma de antes desta experiência. Entretanto, ainda mão me sinto capaz de cuidar do outro. Na verdade, ainda estou aprendendo a cuidar e a me permitir ser cuidada.