Lindo
e aterrador, assim foi despojar-me de meu par extra de olhos. Tirar os óculos,
para mim, é renunciar ao controle da situação. É, de fato, me entregar ao que
está acontecendo, seja o que for. Por isso é aterrador e maravilhoso:
aterrador, porque só enxergo os detalhes próximos; maravilhoso, porque me
entrego ao não-enxergar, ou seja, à ausência de explicações.
De alguma forma, sem os óculos, o medo do ridículo perde força. Não há “jeito certo”. Há, apenas, o movimento pessoal e intransferível do interno, no externo.
De alguma forma, sem os óculos, o medo do ridículo perde força. Não há “jeito certo”. Há, apenas, o movimento pessoal e intransferível do interno, no externo.
É estranho ver-se de dentro. Ver nitidamente a luz que brota em meus olhos, como jamais veria defronte ao espelho. Nunca me soubera possuidora de tantos cílios, nem os vi tão alegremente curvilíneos antes.
Às vezes, depois de mais de vinte anos com estes olhos sobressalentes, eu me pergunto se me reconheço sem os óculos. Já está tão colado, tão preso à minha figura, que desconfio ser uma caricatura esta aqui nua de si. E o outro, desconfiará também?
Na primeira vez que me despi desta maneira, pensei que cairia, tropeçaria, beijaria o chão sem querer. Um dia, porém, tiraram-me os óculos. Furtaram-me o chão, para me acalentar. Então percebi que poderia ficar sem eles por alguns minutos. E decretei: tiraria os óculos para abraçar!
Certa noite, contudo, decidi lançar-me no abismo: passaria a vivência inteira sem meu segundo par de olhos. E foi, como disse, aterrador e maravilhoso.
Quando o mundo desfocou lá longe, lá, do outro lado do salão, meu sorriso escancarou-se; os olhos, também meus, jubilaram-se, radiantes. Nunca pensei que coubesse tanta luz em olhos tão miúdos!
Sem nada a controlar ou explicar, nós, a vivência e eu, nos interpenetramos. E gozamos juntas esta fusão inominável.
Na afonia da mente, foi a alma quem dançou no corpo. Leve, expandida e serelepe. Uma menina travessa, enfim.
Aqui,
vi luzes, ao invés de formas rijas e indissolúveis. Vi a Alma da Biodanza.
